Escrevo versos nas horas paradas
Que me seguem em dias repetidos
Fazendo o ritmo das letras apertadas
Nas cores que me aquecem os sentidos.
Das palavras saem ideias atrevidas
Que se soltam ao sabor das tempestades
São tantas horas de rimas desabridas
Que nunca se domam nas vontades.
Muitas horas se dobram e redobram
Nos sons que não se podem transcrever
São muitos os desejos que nos sobram
Nestas horas de versos a correr.
Parado ouço as horas do tempo a voar
Vão caindo lentamente sem se ver
São versos que ainda quero cantar
E outros que tristemente irei escrever.
Nestas horas vai ficando a solidão
Que nasceu levemente na minha mão
Escrevendo sem amor e sem razão
luiscoelho
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Vidas
A Ti Carminda, completou 89 anos em Dezembro último. Tem lucidez bastante e recorda-se da sua vida passada, lutando dia e noite, para melhorar as condições de vida, da casa e da família.
Mulher destemida e determinada, para vencer todas as situações.
Aos poucos, vai recordando e recontando as suas histórias.
Por vezes, apetece-me dizer-lhe:
- Já me contou isso centenas de vezes...! Será que ainda vai falar outra vez no assunto...?
Para ela, será sempre a primeira vez, e dá-lhe gosto, contar aqueles casos passados, e que de algum modo a marcaram.
Frente ao meu silêncio, ela abre lentamente aquele livro, que é só seu.
Não sabe ler, nem escrever, mas estes factos, e acontecimentos, foram escritos com o seu suor e sofrimento e ainda a capacidade de ver mais alem.
Um livro, que também se vai apagando lentamente.
Um dia, será a sua última história. Um dia, aquele olhar que nos mede, e nos interroga, até ao fundo da nossa alma, deixará de fazer perguntas. Nesse dia talvez pergunte:
Esqueci-me de escrever, aquela conversa das tias e das primas, quando se abeiravam da Carminda para se certificarem dos seus conhecimentos e refolhearem as suas recordações.
Porque me esqueci de escrever...? Porque não quis perguntar...?
No seu livro, estão registadas as orações que se devem fazer para proteger a casa e a família, outras para as desgraças ou as pragas, e ainda as dos maus olhados, invejas ou espíritos malignos.
Sabe de cor, aquelas orações que se fazem pelo Natal, Páscoa ou ainda na Quaresma e ainda como as pessoas se devem comportar socialmente, respeitando-se ou ajudando-se nas horas mais complicadas ou mais felizes.
Para ela, tudo aconteceu num dia muito recente e ainda hoje não sabe onde encontrou forças para vencer situações de extrema dureza.
Alguns casos
Ontem, domingo, estávamos na Igreja assistindo à Missa. Entrou um senhor, conhecido de todos, mas que estava doente. Tinha morrido um grande amigo seu, inesperadamente, e isso perturbou-o.
Começou a falar alto lá dentro da Igreja.
Uns riam dele, e outros olhavam com desinteresse.
A senhora Carminda, esperou em vão, que algum dos homens presentes o ajudasse e o levasse até à rua para que se acalmasse. Como ninguém o fez, foi ela que se levantou e o chamou. Levou-o para junto de si e recomendou-lhe:
Estamos na Igreja e vamos rezar. Essas conversas, são para a rua, para serem faladas lá fora.
O senhor ajoelhou-se no chão e ali esteve todo o tempo até ao final da cerimónia, sem abrir mais "piu", nem incomodando nenhum dos presentes.
No final todos louvaram o gesto da Ti Carminda.
Conta ainda, que durante um ano, não voltou a entrar na Igreja. Sentava-se na rua, ao sol ou à chuva, e rezava sozinho e em silêncio o terço.
II
Uma outra vez, os homens lá da aldeia, voltaram-se uns contra os outros e andavam numa contenda sem fim à vista. Na contenda, estava também, o pai e o marido da senhora Carminda.
Prevendo maus resultados, ela, meteu-se ao meio, para os afastar. Foi quando começaram a chover as primeiras bofetadas. Como ela estava no meio foi ela que as apanhou. Não eram para ela, mas quem as deu até ficou convencido que tinha batido no adversário.
A luta terminou e cada um foi para sua casa.
A Ti Carminda guardou estas recordações que ainda hoje nos conta com muita alegria, convencida que foi ela que ajudou a serenar os animos.
III
Certo dia, um cunhado, levado de ciumes jurou que havia de matar o marido da Carminda. O Caciano.
Bem lhe mostraram, que ele não tinha razão, e que o Caciano nem lhe devia, nem lhe queria mal.
-Hei-de matá-lo e pôr-lhe os fígados ao sol...........Hum...Há-de saber quem sou eu........
- Homem, não faça isso! Ele não lhe fez mal a si e "vocemecê" estraga a sua vida, e vai para a cadeia.....diziam-lhe todos.
_ Hum.... porque assim...e por mais aquilo....eu.... mato-o.......continuava, e dito isto, mete a mão ao bolso e tira uma navalha.....
A Ti Carminda, estava por perto e como viu o que o cunhado ia fazer, pegou numa cavaca de carvalho e desancou-o sem dó nem piedade.
O tio António Pirícas, largou a navalha no chão e começou a gritar:
- Ela bateu-me...ela bateu-me....! Vou-me queixar à polícia......! Vamos para a Justiça...
Dizia-lhe a Ti Carminda:
- Vai...vai...Ainda vais dizer aquilo que tu és...!
Veio a Polícia de Sernancelhe e começa um inquérito.
- Então D. Carminda bateu neste senhor....?
- Bati sim senhor.
- E porque lhe bateu.....?
- Estava na minha frente e dizia que ia matar o meu marido....
- Senhor António Piricas, você não tem vergonha de levar tareia de uma mulher, e ainda ir queixar-se à polícia...?
- Você não tem juízo, nem vergonha. Veja lá a desgraça que ia fazer....!
Passado algum tempo voltaram a ser amigos e lá se desculparam por estes desaguisados.
IV
Uma outra vez, as Primas do Caciano, andavam furiosas com senhora Carminda. Não conseguiam dar-lhe a volta e por tudo queriam que o Caciano semeasse primeiro as suas terras. Porque lhe pagavam e porque devia ser assim, mas a Carminda, já tinha combinado com o marido:
- Primeiro, semeamos nós e depois, irás semear para elas se quiseres. Não te esqueças, que primeiro estão os teus filhos para comer, e quem manda cá em casa és tu e eu, e nunca elas......!
Como não conseguiram os seus intentos, a mais nova das primas, pegou numa pistola e foi ameaçar a Carminda.
- Dou-te um tiro e vou-te matar....! Não hás-de levar sempre as tuas razões avante.
- Nesta altura a Carminda, estava nas suas lides, dentro de sua casa enquanto a outra barafustava na rua, fazendo grande alarido.
- Apontava a pistola e repetia:
- Apontava a pistola e repetia:
- Vou-te matar....Vou...Vou...!
Responde a Ti Carminda:
- Dá lá o tiro depressa....vê se acertas no buraco do cu..... Já está aberto e não precisas de fazer mais estragos....!
E continuou a fazer a sua vida descansadamente como se nada estivesse para acontecer.
E continuou a fazer a sua vida descansadamente como se nada estivesse para acontecer.
A prima, ficou ainda mais furiosa, mas deu-se por vencida e lá se foi embora.
V
Uma outra vez, foram para o tribunal fazer a partilha dos terrenos da quinta.
Quando chegou a vez de todos assinarem a Ti Carminda perguntou ao Sr Dr juiz:
- É justo assinar uma partilha de menores..............??
- Os primos usaram de má fé e queriam todos os terrenos só para eles.
- Cala-te e não digas nada..... Replicavam eles na presença do Juiz.
O Doutor, ouviu e já não fez aquela escritura, mas ainda assim, eles teimaram em considerar seus todos os terrenos, madeiras e nascentes de água, não deixando nada aos outros herdeiros.
Morreram já, e nada levaram alem da pobreza em que se afundaram com a ganância do dinheiro e uma avareza desmedida sem respeito pelos outros.
Vl
Quando lhe nasceu o filho José, a vida e as condições da Ti Carminda tinham melhorado pouco.
As pessoas, naquele tempo, pensavam em comprar terras e pouco se importavam com as condições das suas casas.
Lá se ajeitavam, como podiam, e havia sempre uma panela de sopa fresca todos os dias.
Era o seu sexto filho.
Um dia quando lhe dava o peito para ele mamar sentiu uma dor muito grande e a seguir o bebé "engasgou-se".
Olhou primeiro para o menino e deixou que vomitasse o seu mamilo.
Já não tinha leite e o bebé puxou até lhe decepar o mamilo.
Estancou o sangue, e fez um tratamento com ervas, que lhe aconselharam.
A sua preocupação agora, era como iria criar aquele bebé. O menino ainda não tinha um ano.
Estava muito aflita e lamentava-se :
- Que vai ser da minha vida .... Perguntava sozinha , sem esperar que alguém lhe respondesse.
Comprou uma cabra, e começou a dar ao bebé aquele leite fervido. Por vezes, iam para o campo logo de manhã e não podia ferver o leite da cabra. Outros dias passavam por lá o tempo todo e não podia cuidar do seu menino como devia fazer.
Já sei, disse ela. Chamou a malhadinha (era o nome da cabra). Segurou o filho com um braço e com a outra mão deu-lhe a mama directamente da cabra.
A partir desse dia a cabrita e o menino eram inseparáveis.
Logo que ouvisse o primeiro choro do bebé a cabrita vinha dar-lhe mama, alargando as patas trazeiras por cima da cabeça do bebé de modo a que ele pudesse mamar.
De recompensa a senhora Carminda dava-lhe um naco de pão ou uns bagos de milho.
Todos se admiravam com estes pequenos milagres, e com a capacidade de contornar os problemas. Ainda teve mais dois filhos que criou apenas com um peito.
Na sua última filha é da idade do neto mais velho a quem também ainda amamentou.
Hoje olha para as suas filhas e só lhes diz:
- Vocês não sabem o que é a vida nem das dificuldades para criar um filho !....
Hoje vocês tem tudo, e lá vai recitando a " lenga-lenga" do costume.
luiscoelho
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Se eu fosse jardineiro
As cores encantam
Enchem-nos de magia
Libertam o nosso olhar
E deixam-nos sonhar
Tão simples e pequenina
Com tantas flores carregada
Passa uma semana
Passam duas e passam três
Sempre assim ornamentada
Até passa mais de um mês
Dá gosto olhar para ela
Falar-lhe com animação
Tanta beleza e tanta cor
Até faz bem ao coração
Se eu fosse jardineiro
E dela pudesse cuidar
Certamente estas flores
Jamais iriam murchar
luiscoelho
pedras nuas
Pedras nuas, tristes a valer
Vazias de tanto penar
Formando aqueles caminhos
Onde acabei de passar
Formando tapetes com vida
Mais alegre ou colorida
Que me fizeram sonhar
E amar mesmo sem querer
Pedras vivas e coloridas
As que formam as avenidas
Ou os caminhos do coração
Pedras pintadas à toa
Ou pedras pintadas à mão
São aquelas que nos falam
No silêncio da oração
Ou nas alegrias sofridas
Pedras nuas, minhas e tuas
Formando os caminhos da vida
Girando nas marés e nas luas
luiscoelho
sábado, 20 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
lágrima
Uma lágrima perdida
No teu rosto gelado
Escondia em silêncio
O teu o teu grito calado
Morrendo levemente
Sem ninguém entender
Porque se escondia
Sem ninguém a ver.
Uma lágrima triste
No teu olhar transparente
Desfazia-se no brilho
De uma estrela candente
Que corria apressada
Num sorriso encantador
Abraçando-nos a todos
Em afecto e amor
Segurei esta lágrima
De tão doce sabor
Que no teu rosto brilhava
Com o mais fino amor
luiscoelho
No teu rosto gelado
Escondia em silêncio
O teu o teu grito calado
Morrendo levemente
Sem ninguém entender
Porque se escondia
Sem ninguém a ver.
Uma lágrima triste
No teu olhar transparente
Desfazia-se no brilho
De uma estrela candente
Que corria apressada
Num sorriso encantador
Abraçando-nos a todos
Em afecto e amor
Segurei esta lágrima
De tão doce sabor
Que no teu rosto brilhava
Com o mais fino amor
luiscoelho
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Oração
Acordamos em silêncio. Lá fora o frio e a chuva assobiam nas paredes e nas árvores ainda nuas do Inverno. As lembranças dos temporais por esse mundo fora caiem-nos em cima como chuvas geladas que desabam, esmagando-nos.
Arrepiado, levanto-me. Olho a rua e vejo a chuva e o vento.
Meu Senhor e meu Deus creio em Ti, perdoa por Te esquecer.
Lembra-Te dos pobres, sem nada e das crianças abandonadas.
Lembra-te de quantos, para alem da chuva e do frio, não tem pão para comer, nem tecto para se abrigar......!
Será que vais ouvir-me....?
Só me lembro de Ti quando estou mais aflito. Desculpa! É condição humana !
Hoje, até nem Te pedi nada para mim e os meus. Pedi para tantos, tantos cobertos de chagas e dores.
Pedi-te por todos os que Te esquecem e Te aborrecem e principalmente por aqueles que não Te conhecem nem ainda ouviram falar de Ti.
A todos, Senhor Jesus, dá paz e dá pão. Cobre-nos a todos com o Teu manto de amor.
Dá-nos mais Fé e deixa-nos amar-Te como somos e com o que temos.
Obrigado por me ensinares a orar no silêncio desta manhã
luiscoelho
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