terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Cata-vento


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(Foto google)

Hoje viemos encontrar o avô às voltas com um pedaço de chapa de zinco. Pensámos que queria arrumá-lo, mas não. Ele tinha outros pensamentos. Daquele pedaço de zinco haveria de nascer uma coisa diferente. Um cata-vento.
Havia entre as suas ferramentas toscas um eixo da nora do poço que agora lhe servia de bigorna.
Quando veio a luz eléctrica, 1955, o avô vendeu uma pipa de vinho mais alguns pinheiros velhos e comprou um motor eléctrico para o poço tendo nesta data desmantelado a nora.

Com um martelo foi batendo aquela chapa para a alisar. Os olhos dos garotos abriam-se ainda mais pois não sabiam os pensamentos do avô.
Depois, cheios de curiosidade, perguntaram: 
- Avô, que estás a fazer?
- Com este pedaço de chapa quero fazer um cata-vento, mas é melhor irem brincar lá para fora. Isto ainda vai levar muito tempo. 
Já o construí dentro da minha cabeça, mas não sei explicar de modo que vocês percebam. Depois vocês vão ver! Disse-lhes com muita calma e doçura no olhar.

Desta vez os miúdos não regatearam as palavras e, num ápice, desandaram para o lado da eira. Os gritos de alegria animaram todo aquele canto do avô. Agora ele sentia-se num mundo mais jovem. Uma vida diferente povoava-lhe aquele vazio dos dias silenciosos
Quando voltaram para dentro, já o avô tinha desenhado as suas ideias. Com um lápis riscou num cartão um cavaleiro montado num burro. Não era assim muito, muito parecido, mas depois de nos dizer o que era, ficámos a ver um burro e a metade superior de um corpo de homem. 

- Agora vem o mais difícil, continuou o avô. É fazer tudo isto naquela chapa de zinco. Vamos a ver se eu consigo "dar conta do recado".
Entretanto chegou a hora  do almoço. 
- Vão lá para dentro. Vão lavar as mãos e preparem-se para comerem tudo sem aborrecer a mamã. 
Encantado com os netos ficou a vê-los entrar em casa.

Nos dias seguintes os miúdos foram para a escola mas o avô não desistiu do seu sonho.
Com uma tesoura de podar, já velha, foi recortando a chapa.
O burro ficou quase perfeito. 
As patas e as orelhas identificavam-no.
O cavaleiro tinha as mãos espalmadas, segurando as rédeas da besta. Na cabeça tinha um chapéu que lhe escondia os restantes pormenores.

De um  lado deixou duas pontas salientes, uma em cima e outra em baixo onde prendeu um tubo de plástico. Dentro deste tubo entrava uma ponta de uma verga de ferro que o avô fixou na parede. Assim o cata-vento podia rodar mantendo-se sempre na posição vertical.

No sábado não havia escola. O avô sentou-se no seu canto. Estava à nossa espera. Ao lado tinha o cata-vento. 
Assim que nos viu chamou:
- Venham cá, venham todos!
Hoje vamos colocar o burrinho e o cavaleiro a trabalhar. Querem ver? 
Então foi buscar uma escada de madeira, que ele também tinha feito. Encostou-a à parede da casa da eira e subiu segurando numa das mãos o seu trabalho.
Os netos estavam admirados com a sua paciência e determinação. Subiu os degraus todos e colocou o cata-vento no lugar.  
- Já está! - Disse vitorioso.
Com a mão que estava livre ajeitou o boné na cabeça e esperou algum tempo no cimo da escada  para ver se estava tudo certo.

Depois começou a descer. Agora parecia que estava com mais dificuldade. Os nossos olhos fixaram-se mais no avô que descia com muito cuidado. 
- Trinta mil cautelas!... disse-nos mais tarde. 
E foi descendo lentamente de degrau em degrau e mudando os pés e as mãos alternadamente.
Quando chegou ao fundo começámos a bater palmas para festejar e para lhe agradecer. 
Havia um brilho especial naquele olhar. Uma vitória. Estava tudo a funcionar como tinha sonhado.

Finalmente foi sentar-se na pedra grande encostado à parede da casa  de onde podia ver o cata-vento a rodar. Nós sentámo-nos ali à volta seguindo o seu olhar e as voltas que o burrinho ia dando lá em cima.
Mais tarde irá arrumar a escada, não vá algum do meninos querer subir por ali acima... 

luíscoelho
Setembro/2015 

sábado, 12 de setembro de 2015

Com o Avô Luís

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Foto google

Hoje o avô estava sentado naquele canto do jardim onde costumava passar as tardes. Quando não chovia e o frio não era muito forte, era ali que o encontrávamos. Hoje reparei que ele se sentava naquela pedra grande, junto ao portão de madeira e que se encostava à parede. Assim protegia-se dos ventos frios do norte e, ao mesmo tempo, aquecia-se com o Sol que lhe chegava silencioso no final das tardes de Outubro.

Muitos dias mantinha a sua expressão séria e calma, ocupando as suas mãos em pequenos trabalhos que ele gostava de fazer.
Parecia mergulhado em sonhos de criança construindo sem pressa pequenas coisas que o distraíam. Dava gosto vê-lo brincar com pequenos pedaços de madeira, de ferro e também de plástico.

Quando agarrava um pau, grande ou pequeno, parece que lhe nascia o sonho de o tornar numa outra coisa mais bonita e prestável. Foi assim que ele com um canivete e algumas horas de paciência construiu o meu primeiro cavalinho.
Depois ajudou-me a montar e eu tornei-me num cavaleiro a sério. Parece-me que brincámos os dois pela tarde toda.

Meti o pau no meio das minhas pernas e segurava-o com um cordel que o Avô me disse serem as rédeas. As rédeas servem de comando do cavaleiro sobre o animal.
Dar "rédea curta" ou "rédea solta"
- Xó, xó!...Arre burro!
Aí, xó burro...Foram expressões novas que aprendi naquela tarde. 
Quando passava perto ele imitava as patas e o trote do cavalo.
E riamos ambos quando o avô fazia o relinchar da besta.
Foi uma tarde que nunca mais esquecerei.
O tempo foi nosso. Não demos conta da noite chegar.

Agora os dias passavam lentamente, mas ao mesmo tempo, sucediam-se rapidamente. Corriam os dias, as semanas, os meses e até os anos. 
-Ainda ontem os meus filhos casaram e já estes garotos correm aqui cheios de vida e de encanto. Dizia falando consigo, mas ao mesmo tempo querendo que o ouvíssemos.
Outro dia encontrei o avô a construir um cata-vento.
Depois falaremos dele. O Avô partiu em 2004, mas o cata-vento, ainda roda, empurrado pelo vento.
Contarei esta história depois.
Hoje vou dormir, como naquele dia, abraçado ao meu cavalinho.
Luiscoelho
Setembro/2015

domingo, 30 de agosto de 2015

Luar de Agosto

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(foto google)
As minhas mãos percorrem
Os traços do teu rosto macio. 
Elas me acordam outras estradas,
Caminhos percorridos no cio.
Teimosamente quero amar-te.
Quero entrar nos teus sonhos
Que se desfazem neste amanhecer
Que o luar de Agosto nos faz viver.
Nossas línguas se cruzam
E se trocam de medos perdidos,
Desencontros sofridos,
Searas semeadas de saudade
Em tempos passados, vividos,
Amores nunca mais repetidos.
luíscoelho
Agosto/2015

domingo, 23 de agosto de 2015

Outono

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(Foto google)

O dia estava triste como eram tristes os dias sem Sol. Era Outono. No Borda D'Agua dizia - Tempo instável. 
Haviam no entanto algumas abertas. Momentos de Sol radiante. As nuvens espessas desapareciam misteriosamente para depois regressarem mais escuras.

- Que tempo doentio!...Muito enfadonho este tempo. Que Deus me perdoe. Dizia o ti Tóino a meia voz. 
Também ele estava no Outono da vida. Já passava dos setenta.
Tinha um corpo seco o que lhe escondia a idade.

Todos os dias se levantava com muita energia para cumprir as suas tarefas. Ele a mulher davam-se bem. Tratavam-se agora com maior carinho. Dava gosto ouvi-los falar entre si.
Não enchiam a boca com as palavras: 
- Meu amor, minha querida ou outras coisas que hoje se ouvem com muita frequência.

Agora, no final da sua caminhada, sentiam mais necessidade um do outro. Os filhos emigraram. Ainda não tinham despido os cueiros e já se tinham aventurado na busca de uma vida melhor.
O Ti Tóino e a sua Maria Emília não se opuseram. Choraram alguns dias, mas depois conformaram-se. Até acharam bem que os filhos emigrassem.

Aqui temos a nossa casa e as nossas raízes, mas só isto não lhes chega. Eles precisam de viver a vida.
Esta aventura fica bem aos mais novos. Têm sangue novo e capacidade de se adaptarem. 

Hoje o mundo parece ser mais pequeno. Os povos movimentam-se para todo o lado. Enquanto uns fogem da guerra e perseguições outros fogem da fome e das calamidades naturais.
Nós fomos criados com os nossos pais, mas hoje tudo está mudado.

- Ó Toino se fossemos mais novos, faríamos como eles. Disse-lhe a mulher, a ti Maria Emília.
- Gostavas de ir comigo mulher ? 
Haveríamos de mostrar a esta gente aquilo que somos capazes!
Bem, bem...Agora deixemo-nos desses sonhos. Tomara eu que tu não me faltes mulher. Nem sei o que seria de mim viver sem ti.

- Ai Tóino, Tóino , tu não me fales assim...
Tu nem sabes o que dizes!
Como poderia eu viver neste mundo sem a tua companhia? Que Deus me leve a mim primeiro.
- Sabes mulher?
A nossa conversa está triste como este tempo...
Vamos cuidar do nosso quintal e das nossas coisas.
Enquanto estivermos juntos a vida tem mais sabor!
Depois, será o que Deus quiser, mas não vamos pensar nisso agora.

Vamos organizar o nosso tempo.
Graças a Deus não precisamos de correr. Não temos dívidas e ainda nos sobra para o pão e para a sopa de todos os dias. 
Dinheiro, dinheiro não temos de sobra, mas como estamos habituados já nem reclamamos de nada.

Ai homem nisto tu tens razão. Algumas vezes acordo a pensar que este mundo é muito injusto.
Uns têm muito e outros não têm nada.
Luiscoelho
Agosto/2015



domingo, 9 de agosto de 2015

Perdi-me no mar


(foto google)

Perdi-me no mar
De te amar a brincar,
Sentindo a dor 
De me querer dar
Mas perdi-me no canto 
De te amar sem pensar.
Cantei à noite
E cantei de  dia
Para te ver despertar,
Até mesmo a dormir
Eu te quis sentir
Cá dentro do peito 
E só desse jeito
Poderemos voar.

Perdi-me no mar
De amar os teus beijos  
E no calor dos desejos
Segui a remar.
O amor é brilhante
Mas em cada partilha 
Nada é semelhante.
Perdido eu vivi 
E depois que te vi
Não te quis mais perder, 
Só com o teu amor eu quero viver,
Mas se ele partir para outro lugar
Prefiro morrer a ter de sofrer 
Tão longo penar.
luiscoelho
Agosto2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Vidas Simples

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(foto do google)


Acordou na suavidade do amanhecer. Abriu os olhos para a luz que lhe entrava pela porta entreaberta e deu graças ao seu Deus e  Criador. Mais um dia neste presente que Tu me ofereces Senhor. Mais um dia  sem que eu tenha feito alguma coisa para o merecer.
Aqui, ao meu redor, tudo canta e Te dá graças nesta manhã. Obrigado. 
São os animais que nos guardam, são as flores que olhamos, são as fontes onde bebemos e os campos onde labutamos e nos alimentamos. Obrigado. Também os ventos, o Sol ou a chuva que recebemos e até os mares e os rios onde pescamos cantam a Tua magnificência. Obrigado.

Depois, destes breves momentos, procurou as suas roupas e vestiu-se sem pressas. Tinha o dia todo. 
Vestiu, primeiro, uma camisa grossa de linho. Era aberta apenas em cima e aconchegada ao pescoço com três botões brancos.
Depois enfiou um pé nas calças e puxou-as para cima, mas logo voltou a descê-las para enfiar o outro pé na outra perneira.
Agora sim puxou-as para cima e muito acima da própria cintura.  Ao apertá-las com o cinto as calças faziam um folho a toda a largura, mas ele habituou-se assim.
Era como gostava de andar vestido. Finalmente calçou uns tamancos de madeira.

Vivia sozinho.
A sua Joaquina partiu numa tarde fria já lá vai um ror de anos. Agora sentia-se livre, mas mais triste. A viuvez vestiu-lhe os dias de cinzento.
Algumas viúvas sorriram-lhe num convite de partilha. Bastaria escolher uma delas para dividir e partilhar a sua solidão.
Não conseguiu nunca separar-se das memórias da sua falecida e agora já era tarde para tomar esta decisão.

Habituou-se a viver numa grande simplicidade. Todas as semanas uma das filhas limpava a casa e cuidava das roupas. Ele aprendeu a fazer a sua comida. 
Não podemos parar, dizia com um olhar atento. Enquanto puder vou fazendo pela vida. Não espero enriquecer, mas enquanto tiver forças continuarei a cuidar dos meus animais e da minha horta.
Duas ou três galinhas, um gato - o canito, um cão - o rafeiro que nunca o abandonava e a burra.
O canito e o rafeiro tinham carta branca e entravam em casa livremente.

Agora fazia contas à vida. Os trabalhos feitos e os que devia fazer, dando a cada um a primazia da necessidade. Nem a vinha pode esperar por uma cura de sulfato nem o milho e o feijão podem esperar por um a boa rega.
Nestes pensamentos de rotina foi construindo o seu dia de trabalho.

Cerca do meio dia voltava a casa. Habituou-se a fazer um caldinho, sopa. Nestas horas era normal ver os três dentro da cozinha. Ele, o canito e o rafeiro.
Gostava de estar ocupado. Não se sentia tão triste, nem os pensamentos o sobrecarregavam de lembranças dolorosas.
Pensar bem não pesa, mas as outras recordações avivam feridas que não queremos  nem amamos.

A primeira coisa que fazia quando entrava em casa era remexer a cinza do borralho. Juntava-lhe algumas carumas secas e soprava para reacender a fogueira.
Depois ajeitava uma panela de ferro de um lado e um púcaro de barro com água do outro lado. Acrescentava ainda alguns cavacos secos de modo a manter uma fogueia constante.
O canito soltou um miau, avisando também que estava com fome.
- Já vai...Tens de ter paciência. Tens de esperar pela tua vez.

Depois de saciado com o caldo e uma fatia de boroa foi a vez de repartir com o rafeiro e o canito. Cada um tinha a sua gamela. 
O sono veio de mansinho e ele dobrado sobre si num canto da mesa deixou-se dormir. Era a sua sesta.
Dez minutos depois já estava acordado.
- Ora vamos lá com Deus.
Era preciso continuar. Nunca se acabava o trabalho, graças a Deus. 

Foi para o pátio, soltou a russa, aparelhou-a e meteu-lhe as gingarelas, cangalhas. À noite, ela tem de trazer uma carga de couves e de feno verde para casa .  
- Oh, oh! Pode melhor do que eu! Então!?
Eram assim os seus dias, todos os dias do mês e do ano.
- Que Deus me ajude e guarde. Eu também não faço mal a ninguém! Dizia.
Passava os seus dias na companhia do rafeiro e metido apenas com estas preocupações.
Por vezes encontrava os seus vizinhos e então perdia-se na conversa com eles. Os temas eram sempre sobre o tempo ou as moléstias que dizimavam as vinhas ou as suas culturas.
O mundo ficava muito longe dos seus pensamentos. As notícias e as políticas não lhes diziam respeito.
Neste tempo, as notícias corriam lentamente e de tal modo lento que cada pessoa pensava que isso era um mundo diferente e distante onde eles nunca poderiam chegar...
luíscoelho
Julho,2015,20

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Um poema ao anoitecer


(foto do blogue - Flor de Jasmim )

Um poema ao anoitecer
Faz-se de pequenas carícias,
Gestos que se soltam do olhar.
De palavras simples e míticas
E dos sonhos acorrentados,
Como campos por nós semeados
Pelo sabor das conquistas.

Um poema ao anoitecer
Faz-se na ponta dos dedos,
Desenhando os nossos segredos,
Desejos, sonhos sem medos
E tudo quanto nos faz viver
Nesta vida onde o querer
Será maior que o nosso ser

Um poema de anoitecer
Faz-se de estrelas cintilantes
De amores e de amantes.
São anoiteceres vibrantes
Até os beijos são presentes
Que todos vamos tecer.
Luíscoelho
Julho/2015/10