segunda-feira, 8 de março de 2010

O Toninho

A Ti Carminda conta que os irmãos do Caciano, seu marido, emigraram para o Brasil. Venderam tudo o que tinham, juntaram o dinheiro e embarcaram na aventura de uma vida melhor. 
Um sonho que seduziu muitos homens daquela aldeia da Beira Alta, na decada de 1930/1950.
Ficou apenas o Caciano, o José, mais conhecido pelo tio Zé Lambão, e a irmã mais nova. Deotília a quem chamávamos tia Badeira.
Gostava de saber todas as novidades e andava sempre com o reportório actualizado.
Os restantes cinco emigraram para o Brasil de onde nunca mais voltaram.
A irmã, casou uns anos mais tarde, com o António Pirícas.
Eram jornaleiros e viviam com muitas dificuldades.
As jornas eram baixas e o dinheiro desaparecia sem se saber por onde, nem em quê.
Ficava todo na Taverna onde compravam o arroz e o petróleo e também a "pinga" para empurrar a "bucha" de manhã e à noite.
Fico encantado com a força desta gente, que vive com tão pouco.
Amassa o pão de cada dia com as próprias lágrimas e tempera-o com a força dos seus braços cavando aqueles canteiros de terra em volta das fragas. 
Vivem com uma alegria ímpar e inigualável.
Em dias de festa e romarias nas aldeias vizinhas, eram motivos suficientes para entregar a Deus e aos santinhos as suas dores, as tristezas e até a guarda dos seus animais.
Viviam nestes dias de uma alegria contagiante, participando nas missas e procissões, mas também nos bailarícos pela noite dentro. Por vezes levavam um farnel para passarem mais tempo na festa.
Na alma de cada um mora um sonho.
Ainda virão dias melhores. Teremos mais dinheiro e uma vida menos arrastada. Sonhavam em cada dia, em cada madrugada em que se levantavam para mais um dia de trabalho.
   Nasceu-lhes um menino que veio completar a alegria deste casal.
Era a coisa melhor que eles tinham. 
E faziam contas. Um dia, na nossa velhice, sempre temos alguém que olhe por nós....!
Os filhos, eram uma mais valia . Trabalhavam para os pais até à idade de se casarem. 
Costumavam casar a partir dos vinte anos e só a seguir ao casamento é que faziam uma vida independente.
O seu menino , um dia a brincar com uma foice, (citôira) cortou-se no maxilar inferior. Tinha nesta data oito anos de idade e começou aqui o seu longo calvário.
A mãe lavou-o e desinfectou-o e tudo parecia normal. Passados alguns dias o menino apareceu com um tumor no maxilar e a cara muito inchada.
Foram ao doutor, mas como a situação piorava de dia para dia, o doutor mandou-o para Lisboa para outros médicos mais entendidos.
Ficou internado e a fazer tratamentos durante muito tempo.
O pai, sem dinheiro, para fazer face às despesas correntes, emigrou para França. 
A mulher , lá foi aguentando as viagens para Lisboa, na esperança que aqueles doutores lhe salvassem o seu menino. 
Os meses foram passando e os médicos, foram retirando algumas partes infectadas.
Melhoras não havia sinal nem as dores diminuíam.

Passados cerca de cinco anos o Toninho já não tinha língua nem todo o maxilar inferior. 
Uma enorme ligadura  apertava-lhe um penso entre o nariz e o pescoço, substituindo o espaço do maxilar inferior. A ligadura era apertada no cimo da cabeça.
Para esconder aquela personagem pouco vulgar arranjaram-lhe um boné grande com abas laterais.
Quando parecia estar com a doença controlada, foi com a mãe à procura do pai.
As melhoras foram poucas e cedo teve de recorrer aos hospitais franceses, passando mais tempo dentro do hospital do que em casa com os pais.
Daqui em diante só vinham a Portugal no Verão, mas houve algumas férias, que ficaram por lá, dado que o seu menino estava hospitalizado ou não tinha forças para fazer longas viagens.
Os anos passaram.
Os pais estavam arrasados. Cansados de tantas viagens, e regressaram a Portugal.
O estado de saúde, foi-se agravando progressivamente.
Passava os dias sentado num cadeirão a ver os programas da TV. Tinha então 36 anos
Alimentava-se com uma seringa de alimentos líquidos, e ainda trocava diariamente os pensos.
A mãe adoeceu naquele ano. Foi hospitalizada com uma pneumonia.
O Toninho também tinha piorado.
Agora era a tia Carminda que diariamente lhe trazia a sopa e o leite.
Morava longe e era penoso fazer todos os dias a caminhada através da serra.
O seu sacrifício era recompensado pelo olhar do Toninho. Aqueles olhos brilhantes, parece que falavam quando via a tia abrir a porta do quarto.
A tia  nunca se esquecia de lhe levar uma garrafa de leite fresco e um termo com sopa de cereais que já tinha feito nessa manhã.
Sentada na beira da cama, enquanto descansava as pernas da viagem, via como ele estava mais calmo e como se deliciava com aquele leite fresco. 
Os olhares que trocavam, eram certamente as suas conversas íntimas. A tia já sabia ler pelo olhar o seu estado interior. 
Antes de sair, já o deixava sentado num cadeirão diante da TV. Aconchegava-o com uma manta de lã e colocava perto dele uma garrafa com água.
Nos seus gemidos de silêncio parecia dizer-lhe:
- Deixe lá ....! Depois eu levanto-me e vou procurar...
Segurava as mãos da tia Carminda como a querer que lhe aquecessem as suas ou talvez a pedir que ficasse ali mais um pouco fazendo-lhe companhia.
Como se entendiam bem....Chegou a levar a lã e as agulhas e ficar por ali mais uma hora só para o ver mais feliz!
Numa manhã gelada quando a tia chegou o Toninho estava tombado para o lado.
Ainda procurou dar-lhe o leite que ele tanto gostava, mas já não conseguiu.
Com carinho fechou-lhe os olhos. Fez-se silêncio.
Chamou o pai para ajudar a lavá-lo e a vesti-lo, mas o desgosto atirou aquele homem para a rua , bem longe daquele quadro.
Apenas se ouviam as orações da tia Carminda enquanto o lavava e o vestia.
Terminou o seu calvário......
Pediram autorização ao hospital para a mãe vir ao funeral do filho. Estava tão debilitada que olhava sem saber porque estava ali, e porque lhe estavam a levar o filho.
Voltou para o hospital logo a seguir ao funeral, mas faleceu ainda nessa semana.


PS - homenagem a todas as mães que perdem um filho e ainda aos filhos sem mãe.
luiscoelho

sábado, 6 de março de 2010

Amo um amor que não tenho

Eu amo um amor que não tenho,
E a ele me abraço tantas horas a fio
Agarro-o no tempo que passa, 
Soltando-o ao vento sem piu.
Choro amando um sonho perdido,
Canto nas noites geladas de frio.
Espero sentado no sopro do  vento,
Um beijo quente a dançar de vadio.


Eu amo um amor que não tenho,
E caminho num mundo vazio
Arranjo asas para o acompanhar
E nunca o perder sem arte nem brio 
Meus olhos são cegos, ceguinhos
Apaixonados jamais querem ver
Que este amor não me vai valer
E os seus beijos só me fazem sofrer


Eu amo um amor que não tenho
E com ele me mato se no mar me banho
Por ele viverei por amor de viver
Pois só quem ama poderá entender
luiscoelho 


sexta-feira, 5 de março de 2010


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Balança Decimal


Balança, balança
segura não cai
O peso vem certo
 se a mão lá não vai
Só mostra o que tem 
o que lá está
 Nunca o que te convém
Balança, balança
amiga fiel
Teu peso é justo
como doce é o mel
Se na vida fizer 
fiel da balança
Certamente hei-de ter
mais vida com esperança
Balança, balança 
p´ra cá e p´ra  lá 
Mas se não parares
bom peso não dá
luiscoelho
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quinta-feira, 4 de março de 2010

Pedaços



O tempo corre apressadamente
Rasgando-me a alma em  pedaços
Lentamente devora e devassa o espaço
Apagando os ais dos sentidos
E dos nervos formados em aço.

Tantos dias perdidos sem eira nem norte
Desfazendo a angústia dos pensamentos
Vividos no sabor amargo da sorte
Que se arrasta levemente no tempo
Despedaçando os melhores sentimentos

Este tempo que vai, voa e não volta
Transporta também os gritos sem vida
Nas fantasias da alma adormecida
E acordam as madrugadas frias e loucas
Que se tecem de horas boas mas poucas

Agarro os pedaços perdidos, dispersos
Soltando as dores que ficaram perdidas 
Na alma vazia de amor e penas sadias 
E com eles canto este canto em versos
luiscoelho

segunda-feira, 1 de março de 2010

Os Domingues do Casal

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Conta-se por aí que os Domingues do Casal eram rapazes "vivaços" e sempre bem dispostos. Não havia nestas redondezas quem os igualasse nas brincadeiras, bem imaginadas e representadas com alto grau de perfeição.
As pessoas nem desconfiavam, que tudo quanto eles diziam e faziam, era pura imaginação.
Mais tarde, comentavam com os amigos algumas destas cenas.
Davam ainda mais graça à sua imaginação, e então os amigos rebolavam-se de tanto riso, quer pela graça das partidas quer ainda pelos gestos e falas utilizadas.
No final saía sempre aquela conversa:
- Isto é muito melhor que irmos ao circo.........!
- Oh Mário, conta lá aquela da Fábrica do senhor Carvalho de Monte Redondo.
 - No mês de Junho, a feira dos 29, era no dia de São Pedro, o último dos três santos populares. Antigamente era dia santo. Ninguém trabalhava aqui nas aldeias. Aproveitavam o dia para irem à feira vender as suas coisas, criadas no campo, ou ainda, para comprarem uma fatiota nova.
O Mário e o Manuel, eram rapazes de aspecto agradável e com os fatos novos, nem pareciam ser trabalhadores rurais, habituados aos trabalhos mais duros da vida no campo.
Entraram na  fábrica, com um ar grave e as mãos cruzadas atrás das costas.
Iam conversando, sem se rirem, e sempre muito compenetrados.
- Dizia o Mário:
-Esta máquina, não pode ficar aqui....Isto, não pode ser assim.... Esta, vamos colocá-la à saída.....
Respondia o Manuel:
- Pois, pois ...O senhor tem razão....Deve-se mudar isto tudo na próxima semana....aquela máquina fica melhor acolá.
Andavam ambos naquele teatro, quando alguém veio ter com eles  e lhes perguntou o que é que pretendiam.
Nós, andávamos a tirar as medidas para fazer a montagem da nossa fábrica, responderam prontamente.
O Senhor Carvalho, deu-nos autorização, acrescentou o outro.
Entretanto, foram caminhando para a saída que já estava perto.
O empregado, nem chegou a saber quem eram, e porque andaram ali tanto tempo.
Já na rua, riam alto, e com mais vontade ainda, por terem conseguido o que queriam. 
Fingir-se donos da fábrica.

II

Havia em tempos, umas Termas para doenças da pele  na Azenha. Ficam ali para os lados de Alfarelos - Coimbra.
As pessoas aproveitavam os meses de Inverno para irem para lá fazer os tratamentos «ir a banhos».
Geralmente passavam lá 15 dias. 
No final da primeira semana, alguém da família ia visitá-los e levar-lhes mais coisas para comerem. 
Durante a estadia, alugavam um quarto, com serventia de cozinha, numa casa particular.
Uma vez, os Domingues, foram lá visitar um familiar.
Embarcaram no comboio na estação de Monte Real, guardando sempre uma saca de pano onde levavam os mantimentos para o seu familiar nas Termas.
No regresso não traziam nada, e então deram largas à sua imaginação. Percorreram todas as carruagens onde conseguiram entrar. Nas estações saíam de uma carruagem e entravam na seguinte  deixando sempre uma marca de boa disposição.
Quando o comboio começou a travar já perto da estação de Monte Real, foram perguntar a umas Senhoras (muito finas e distinas):
- Diga-me por favor que Estação é esta...... ?? (eles fartíssimos de saber)
- É Monte Real, responderam .
-Há ....! Monte Real.....!
- Anda, anda mano!... Temos de sair aqui... vamos embora ...... o nosso choufer, está à espera......! E o Paizinho está muito, muito ralado, respondeu o outro.
As senhoras continuaram a viagem e eles saíram muito rapidamente, pois ainda tinham de palmilhar mais de três quilómetros a pé  até chegarem a casa, pelas encostas das Ladeiras do Casal.

III

Certa vez, andavam cansados de trabalhar nos campos do Vale do rio Liz.
Estavam cheios de pó e de suor. Então combinaram, ir tomar um banho de água fresca ao rio.
Não se via ninguem por ali. Escolheram um recanto ladeado de amieiros  que fazia uma repreza natural de águas muito cristalinas.
Tiraram todas as suas roupas, que guardaram junto de um arbusto, e "descalços até às orelhas" lançaram-se na água, que naquela altura tinha uma temperatura muito agradável.
Alguém os espreitava e os seguia. Assim que os viu a chapinhar no lago foi-se ás roupas e levou-as, sem eles se aperceberem.
Quando foram para se vestir  e não viram as calças e as camisas ficaram desorientados. 
Estamos perdidos, dizia o Manuel. - Então aquela ...santa .... filha da...levou-nos a nossa roupa toda....e agora como é que vamos para casa.... com tudo à mostra....!?
- Tem calma, Manuel. Vamos estudar como fazer isto sem sermos vistos por ninguém. 
É preciso não fazer barulho e ver quando é que podemos avançar.
Dito e feito. Estavam escondidos no ponto onde tinham guardado as suas roupas  e agora queriam descobrir outro sítio mais longe do rio e mais perto da sua casa.
Já não eram como Deus os pôs no mundo. Eram homens feitos, com as suas partes púbicas bem evidenciadas.  Não queriam ser chacota de ninguém.
O tempo estava a seu favor. Era quase noite, e de noite era mais fácil, esconderem-se na própria escuridão.
Aos poucos atravessaram terrenos cheios de milho e pinhais que lhe davam a possibilidade de procurar outros abrigos. 
Chegaram a casa pela noite dentro e já com outro plano vestir-se rapidamente sem serem descobertos pelas irmãs ou os pais..
O Mário estava preocupado com as suas roupas. Faziam-lhe falta e não tinham outra para vestir . Neste tempo só havia a roupa do trabalho no campo, e a roupa do Domingo para ir à Missa "ver a Deus"
Combinaram com a irmã para ir lá a casa da "santinha"....... buscar as suas roupas.
Tão cedo não voltarão a tomar banho no rio e ainda menos completamente nus.

IV

O transporte, nestes tempos recuados, era o burro.
Quando acabavam o dia longe de casa e o cansaço era muito. Montavam-se no burrinho que os traziam de regresso até a casa. 
Parecia uma corrida de burros. Uns atrás dos outros caminhando lentamente no escurecer dos dias e de regresso ao doce lar.
Às vezes o compadre dizia :
- Passamos lá em casa para provar a pinga. Não torcem caminho. 
As conversas e os copos, por vezes, são inconvenientes e no final de um dia de trabalho nos campos, turvava mais os conhecimentos.
Acreditavam que o burro os levaria sempre a casa.
Um dia enquanto bebiam e conversavam na adega do Armando, alguém, por malandrice,  foi trocar os burros de lugar.
De noite todos os burros são pardos, dizem aqui na aldeia.
Quando acabaram de beber o último copo e depois de desejar as boas noites saíram  e montaram-se no burro onde o tinham deixado. Nem repararam que não era o seu.
O burro puxava para um lado e o dono para o outro.
Nã pode ser...! isto nunca m´a  aconteceu....! Querem lá ver que o burro tá doido...!
Olha olha ,...então ali o burro do Mário, salvo seja, e com a sua licença, tá pró mesmo....!
Nós bebemos e os animais endoidaram....... Nã pode ser....
O Manuel chega-se junto do Mário e diz-lhe :
- Vê lá se este burro é o teu...?
- Vendo bem não me parece....! O compadre deixe-me ver  a sua besta....
- Trocaram-nos os animais, tá visto....
Burro para um lado e encontrão para  o outro lá se montaram cada um no seu e seguiram caminho. O Manuel e o Mário Domingues iam a pé e seguravam o burro pela arreata. 
Não está nada perdido..........Amanhã voltamos ao mesmo. 
Ganhamos apenas para a sopa. Cada dia estamos pior....
luíscoelho

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ventos

Passam os ventos soprando 
Nas árvores com rebeldia
Marcam a sua passagem 
Em qualquer hora do dia
E fazem-nos pensar na vida
Quando a força não é aragem.
Se o sopro do vento me desse
Aquele amor que partiu
Queria que o vento soprasse
Toda a noite e todo o dia
Trazendo o tempo de volta
Com amor e muita alegria.
Os ventos são mensageiros 
De muitas coisas na vida
Parados são passageiros
À espera de nova partida
Soprando de Sul ou do Norte
Sendo mais frio ou mais forte
Sua passagem é constante 
De hora a hora  repetida
luiscoelho