sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A ribeira dos Conqueiros



(Foto google)


Anoitecia numa brisa morna de Outono. As cigarras haviam parado o canto. Ouvia-se de quando em quando o piar dos mochos e ainda o coaxar das rãs soltas pelos recantos e poços da ribeira. 

O pessoal regressava a casa depois de um longo dia de trabalho nos campos repartidos daquela várzea fresca e verde.
Todos as casas cá da aldeia tinham ali o seu talhão de terra fértil. 

Nesta época já andavam na colheita do milho, feijão, abóboras e beterrabas. Depois crescia naturalmente uma camada de erva verde que era de bom sustento para as vaquinhas mansas.

Na força do Verão, nos meses de Julho e Agosto, construíam açudes para represar as águas. Depois combinavam entre eles os dias de rega de modo que ninguém ficasse prejudicado.

De quando em quando, no leito do ribeiro, construíam novos açudes. Logo que os primeiros tivessem regado abriam uma comporta no fundo do açude para a água passar adiante.
Muitas noites ficavam por ali de guarda ao açude, embrulhados num capote. Outras noites, quando corria mais água, passavam a noite a regar a terra, pisando com os pés descalços e guiando a água por dentro das leiras de milho verde.

Aqueles que tinham dinheiro mandaram abrir poços e montaram um engenho para tirar água com as vaquinhas. Regavam quando queriam e sempre que precisassem. Mas os outros tinham apenas a água da ribeira. 


Houve muitas guerras e desentendimentos por causa da água. Por vezes a seca era grande e a água era pouca para todas as hortas. Alguns, mais atrevidos, metiam-se dentro dos açudes e abriam a comporta deixando correr a água para a sua horta.

Numa dessas noites, o Charuto meteu-se dentro da represa para roubar a água, mas o vizinho, que estava escondido de guarda, mandou-lhe com a sachola e cortou-lhe o braço.
Já não se entendiam antes, mas agora... Nem eles esperavam este desfecho. 

Um ficou maneta, e o outro não se livrou da cadeia e de o indemnizar por danos pessoais. Ainda me lembro de ver o Charuto com o casaco vestido só de um lado. Do outro a manga do casaco baloiçava-se sem nada.


Nas tardes de Verão enquanto os mais velhos dormiam a sexta os catraios escapavam-se para estas represas e ali aprenderam a nadar e mergulhar em águas limpas.


Na inocência da idade iam para a água descalços até às orelhas e desafiavam-se uns aos outros quem seria capaz de aguentar mais tempo de mergulho ou fazer o maior percurso de natação pela ribeira acima.


Restam-nos algumas lembranças desses tempos e desses terrenos primorosamente trabalhados. Hoje a maioria dessas terras em talhões foi  abandonada e ribeira é um denso matagal de amieiros e choupos além de um denso silvado.
Luíscoelho

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Viagem a Lamego

Este ano quisemos fazer umas férias diferentes. Uns dias na praia e outros de visita pelo país.
Uma das viagens era obrigatória. Visitar um familiar internado na casa de repouso e reabilitação de Aguiar da Beira, no Distrito de Viseu. - Casa Umildasus  -

Dia 15/Setembro - Saída de Leiria 09horas.
A1  e IP3 até Viseu. Seguimos para norte em direcção ao Satão e depois a Aguiar da Beira.
Parámos para almoçar e conhecer melhor a sede de concelho de Aguiar da Beira. 
Aguiar da Beira.JPG




  1. Aguiar da beira - a set on Flickr


    Aguiar da Beira Município português pertencente ao distrito da Guarda, composto por treze freguesias (Aguiar da Beira, Carapito, Cortiçada, Coruche, Dornelas ...


Subimos até ao cimo do Monte de São Macário onde se colhe uma panorâmica geral de toda aquela área.

Depois da visita, na Casa de Repouso, ainda tivemos tempo para visitar Sernancelhe. Uma vila moderna onde o passado está bem cuidado e preservado. Parece poder fazer parte das Aldeias Portuguesas.




O concelho de Sernancelhe


sernancelhe.planetaclix.pt/ - Em cache
Uma guia do concelho e suas freguesias. Fotografias e informações sobre as suas festas e feiras, a história e monumentos das várias localidades.
Visitou esta página em 19/09/11.

Passámos a noite em casa de familiares. Na Sexta Feira, dia 16, 
fomos para Lamego. 
Seguimos em direcção a Moimenta da Beira. Uma estrada com bastante movimento e curvas acentuadas.

Uma paisagem encantadora em todo o percurso. Belos pomares, enfeitam a estrada de ambos os lados mostrando a fruta quase madura. 
Nas encostas mais para cima viam-se grupos de trabalhadores na vindima. 
De quando em quando surgiam belas casas senhoriais resguardadas por muros largos que limitam as propriedades.

Lamego é uma cidade sorridente e de uma paz tranquilizadora.
Visitámos a Sé sem pressa e procurando ler alguma história nos cartazes dispostos ao longo das naves laterais da Igreja.
Catedral de Lamego.jpg

Sé de Lamego – Wikipédia, a enciclopédia livre


pt.wikipedia.org/wiki/Sé_de_Lamego - Em cache -Bloquear todos os resultados de pt.wikipedia.org
Sé de Lamego, foi fundada em 1129. É uma catedral gótica, mantém a torre quadrada original, mas o resto da arquitectura reflecte as modificações feitas nos ...



As pinturas nos tectos e alguns quadros expostos nas paredes merecem um olhar mais cuidado. São obras de grandes mestres e com alguns séculos de vida.

O corpo da Igreja é composto de três naves e toda a construção é de granito cinzento. A decoração das paredes e dos altares estão comedidas pelas imagens dos santos num enquadramento global perfeito e com bom gosto. 

Por toda a cidade via-se uma atmosfera de limpeza geral.



Santuário de Nossa Senhora dos Remédios (Lamego) - Distrito de ...


www.guiadacidade.pt/.../poi-santuario-de-nossa-senhora-dos-rem... - Em cache -Bloquear todos os resultados de www.guiadacidade.pt
O santuário de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, começou a ser construído em 1750, para ser terminado em 1905, ocupando o monte onde existiu ...

Subímos a escadaria da Senhora dos Remédios. À medida que íamos subindo olhávamos a cidade que se estendia pelas encostas e pelo vale fronteiriço numa beleza de um verde maravilhoso.

A Ermida de N. Senhora dos Remédios é um espaço pequeno, mas muito acolhedor. A grande beleza está em todo o conjunto arquitectónico. Escadarias encimadas pelo templo e ainda toda a arborização envolvente destacando-se dois grandes lagos e algumas grutas de pedra granítica sobreposta.

Aproximou-se a hora do almoço e tivemos de seguir as ordens do nosso organismo. Existem muitos restaurantes. Entrámos e fomos bem servidos. Era uma casa com bastante movimento.

O tempo passa e queríamos visitar mais alguns monumentos aqui perto como o Convento de São João de Tarouca e outro de Cister em Salzedas que está em reconstrução.


MOSTEIRO DE SALZEDAS - Município de Tarouca :: Bem-vindo


www.cm-tarouca.pt/menu_lateral.php?menu_lateral=5...66 - Em cache
Convento cisterciense composto por igreja de planta longitudinal com três naves escalonadas, com cobertura em abóbadas de aresta e ogivais, com transepto ...



Mosteiro e Igreja de Salzedas - SkyscraperCity


www.skyscrapercity.com › ... › Portugal em Imagens › Norte - Em cache
20 publicações - 8 autores - Última mensagem: 16 Jul 2007
Mosteiro e Igreja de Salzedas IPA Monumento Nº IPA PT011820050011 Designação Mosteiro e Igreja de Salzedas Localização Viseu ...

Salzedas é uma pequena aldeia situada no fundo de um vale.

Houve muitas modificações na traça original da Igreja. Tem três naves e é bastante espaçosa. O restante do mosteiro está fechado e não foi permitida a visita.

Fomos ajudados por um voluntário que nos foi dando algumas explicações mas parece que também ele não abarcou ainda toda a história  daquele edifício e dos seus habitantes 
Toda a construção está bastante degradada.

A tarde estava avançada. Tínhamos de acabar as visitas e regressar a casa. O cansaço também nos convidava a parar. Ainda assim, fomos a São João de Tarouca e terminámos as visitas com a chave de ouro. 


Na encosta vê-se uma grande construção de pedra que foi o antigo convento. Restam apenas as paredes laterais. Quando os monges foram expulsos tudo foi deixado ao abandono e ainda antes da venda a privados alguns habitantes aproveitaram para roubar as pedras e outras coisas.

Do lado Sul, na meia encosta, fica a Igreja que tem sido conservada por voluntários.  O exterior e a construção é de granito, mas ao entrarmos dentro da Igreja ficamos boquiabertos por tanta beleza.


Com as medidas de austeridade o IPAR retirou os dois funcionários ali destacados e mandou fechar a Igreja. Até parece que os padres ali destacados são dois voluntários.


Gostaria de partilhar algumas fotos, mas as mesmas não são permitidas e ainda assim não conseguiríamos mostrar toda a beleza e riqueza daquela Igreja.

Agradecemos, ao Senhor que nos acompanhou e facultou a possibilidade de fazer esta visita.


Reiniciámos a viagem para Leiria, onde chegámos já ao anoitecer.   


Ps 
Os links a itálico são retirados do google onde poderão ver algumas imagens, assim como a história de cada monumento

Luíscoelho


Convento de São João de Tarouca

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Igreja de São João de Tarouca, Tarouca, Portugal.
Convento de São João de Tarouca, localizado na encosta da Serra de Leomil, no distrito de Viseu, ergue-se num grande vale, ao fundo do qual corre o rio Varosa.
Inicialmente foi um ermitério mas, em 1152, após a vitória de D. Afonso Henriques sobre os mouros em Trancoso, foi lançada a primeira pedra da igreja conventual cisterciense.
O mosteiro foi o primeiro a ser construído no país pela Ordem de Cister.
O dormitório novo e torre sineira foram construídos no século XVI. A última fase das obras de ampliação do mosteiro decorreu no século XIX. Em 1938 seriam restaurados os retábulos, nomeadamente o de São Pedro, atribuído a Grão Vasco.

[editar]Igreja de São João de Tarouca

De arquitectura românicagótica, com portal renascentista, sofreu progressivas alterações durante o século XVII, nomeadamente na fachada. A plantacruciforme de três naves, sendo a central mais elevada, proporciona volumes articulados, nos quais se endossa a torre sineira. A fachada principal tem o pano de fundo dividido por duas pilastras alientes e é rematada por outras iguais, coroadas por pináculos assentes em capitéis.

Mosteiro de São João de Tarouca, Tarouca, Portugal.
No pano central abre-se um portal de verga recta, encimando por uma imagem e um escudo, ladeados por duas janelas. Os altares são de talha dourada, contendo retábulos de pintura sobre madeira, da qual avulta o de São Pedro, o de Nossa Senhora da Glória e o do altar de São Miguel, dos inicio do século XVI, atribuídos a Gaspar Vaz. Na nave central há ainda um cadeiral em talha dourada, enquanto na sacristia se podem contemplar os valiosos azulejos historiados.
Foi provavelmente o primeiro mosteiro Cisterciense em Portugal.
O seu arquitecto conhecia talvez indirectamente as formas e as proporções da escola românica Bernardina, de origem Borgonhesa. A nave central no entanto parece única as laterais aproximam-se de capelas comunicantes (devido à rectorização provocada pelo sistema construído) e pelos contrafortes percebem-se as naves laterais no alçado.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Assassíno

Estávamos a meio da manhã e numa aldeia pequena as boas e más notícias correm depressa.
Não sei como chegou cá a casa a notícia do assassínio de um homem na estrada Nacional 109 à saída da nossa terra. Sei que éramos ainda muito novos. Idade pré-escolar e que tudo aconteceu durante a manhã.

Corremos atrás dos mais velhos e fomos ver. Alguns foram descalços. Parece que os carreiros de pé  no meio dos pinhais eram ainda mais distantes.

O assassino seguiu a sua presa e foi atacá-la já fora da povoação.
O corpo de um homem com cerca de quarente anos, jazia tombado na estrada, ao lado da sua bicicleta.O sangue fazia uma pintura no pavimento.

O Tóino Serra matou-o com uma faca e deixou-o ali caído na estrada. Por remorsos ou medo foi esconder-se em casa de uns comerciantes, ali perto, onde  aguardou a chegada das autoridades.
Algemaram-no e meteram-no num carro preto que o levou para a cadeia.

Nesta altura o filho que era pouco mais velho que nós, rompeu num pranto que fazia chorar todos os presentes.
- Pai, paizinho porque fizeste isto...??....Vê agora como fica a nossa vida....!!
A mulher era de baixa estatura. Não chorava. Puxou os filhos para si e depois do carro partir meteu os olhos no chão e foram andando para casa.

Porque é que um homem  mata outro homem...?
Esta pergunta ficou sempre presente em mim como uma grande preocupação.
O que aconteceu antes deve ter sido muito grave para ele puxar de uma faca e degolar o outro ali sem dó nem piedade...


Nunca soube a razão porque ele matou o outro. A vitima ia de passagem. Foi à feira dos vinte e nove a Monte Redondo e já vinha de regresso aos Milagres onde vivia com a sua família.

Ele era mau, batia com violência na mulher e nos filhos, mas agora ia preso e ia para longe.
Algumas pessoas diziam:
- Isto são horas do diabo. Horas negras... que nos desgraçam a vida...
Enquanto outros com um ar de maior compreensão afirmavam:
- Na cadeia e no hospital todos temos um lugar...
- Ninguém pense que está livre

Esteve preso cerca de 25 anos. Quando voltou estava velho. As rugas marcavam-lhe o rosto gasto. Já não batia na mulher e os filhos cresceram e fizeram-se à vida. 
Vivia envergonhado. Tinha medo do olhar das outras pessoas. 

O povo dizia:
- Nenhum homem está livre de cometer uma loucura. No melhor pano caí a nódoa.
Luíscoelho

domingo, 28 de agosto de 2011

A visita - 19/08/2011



A visita

Abriste-me a porta
E deixaste-me entrar
Olhei-te em silêncio
Com desejo de amar
Nossos olhos  sorriram
Os braços se apertaram
Os corações se fundiram
E as palavras cessaram.

Erguemos as taças
Selamos o acordo
Bebemos o licor
Que se fez do amor
Voltámos a olhar
Sem querer pensar
E um novo abraço
Só veio confirmar.

As horas voaram
Sem nada as deter
Nossas almas migraram
Sem nada entender
Abracei-te de novo
Com um rosto estrelado
Partiste sorrindo
Me deixaste encantado

19/08/2011
Luíscoelho








Blogger Duarte disse...
Me ha llegado la noticia que, algunas de las visitas que emplean la lengua española, tenían alguna dificultad para entender el texto, aquí queda mi aportación con la traducción.

LA VISITA

Me abriste la puerta
Y me has dejado entrar
Te miré en silencio
Con deseo de amar
Nuestras miradas sonreían
Los brazos se han apertado
Loa corazones se fundieron
Y las palabras han cesado.

Elevamos las tazas
Sellamos el acuerdo
Bebimos el licor
Que se hizo del amor
Volvimos a mirar
Sin querer pensar
Y un nuevo abrazo
Solo vino confirmar.

Las horas volaran
Sin nada las detener
Nuestras almas migraran
Sin nada entender
Te abracé de nuevo
Con el rostro estrellado
Partiste sonriendo
Me dejaste encantado.

Poema de Luis Coelho
Traducción de Joaquín Duarte


Un gran abrazo para todos
4 de Setembro de 2011 17:02
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Alex & Dina


(foto do google)


A Dina era uma menina simples. Passava despercebida pela sua conduta diária. Nasceu em Portugal mas logo nos primeiros anos viajou com os pais para a Alemanha onde estudou e cresceu. 

Nos últimos meses do secundário o pai da Dina, adoeceu. Apareceram-lhe vários tumores. Foi operado, mas os tumores debilitaram-no.
  
Regressaram todos a Portugal, com a esperança de um milagre. A Dina e os familiares acreditavam que os ares da aldeia, o convívio com os amigos e ainda o silêncio lhe fariam bem.
Resistiu em casa , durante algum tempo, mas teve de ser internado no hospital.

Em Maio de 2004 ao entardecer o seu coração parou. A Dina abraçou a mãe e retirou-a para fora da enfermaria. Juntaram-se-lhe os outros três irmãos e dividiram entre si o peso de todo aquele silêncio. 

A vida não pára mami. Dizia a Dina à mãe tentando fazê-la regressar à realidade.
Quero continuar a estudar até concluir o meu curso.
Foi para Coimbra e trabalhou até conseguir a licenciatura em Biotecnologia. 


Viajou até à Suiça onde encontrou o Alex e um emprego dentro da sua área de estudo.
A vida é uma corrida. Não podemos perder o comboio das oportunidades que vão surgindo. 
O seu relacionamento com o Alex era de uma simbiose quase perfeita.

Marcaram o casamento, para 23/07/2011 e fizeram os convites aos famíliares e amigos.
Fomos testemunhas da sua aliança. Partilhamos a alegria de cada momento.
Cerimónias foram simples mas muito belas. 

Ambos deixaram transparecer a sua alegria. 
A família abriu-lhes as portas de casa e do coração.
Desejamos que sejam felizes e que consigam alcançar todos os objectivos que traçaram para as suas vidas.
*******************************

Convosco vivemos a coragem
Partilhamos a vossa alegria
E saboreamos o pão do amor,
Que vos reuniu neste dia.


Queremos que a vossa viagem
Seja confiante e serena.
Que os dias sejam de paz
E que vivam em comunhão plena


A vida é de trabalho
De confiança e rigor
Que nunca vos falte o pão
Nem o respeito ou o amor


Que todos os dias vos lembrem
As graças do nosso Deus
Que tenham amor entre vós
E nunca se esqueçam dos seus.


Beijinhos da família Aguiar Coelho

terça-feira, 9 de agosto de 2011

500 Participantes

Exiba pantufas ...jpg na apresentação de slides
Oferta da Rosa Maria
500 Participantes

Em Novembro de 2007 iniciei este espaço. Desconhecia regras, segredos, textos e tantas coisas mais. Com os erros fui aprendendo e muitas noites teimava em descobrir como se organizavam os textos e as fotografias.

Lentamente foram surgindo comentários que me encheram de coragem.
Os participantes foram crescendo, atingindo esta manhã o número quinhentos. Foi o Padre Manuel Gonçalves com o Blogue Veritas in Veritate .

Levantei a cabeça e respirei com gosto e também satisfação.
Foi um esforço coroado com êxito que atribuo a todos os que vem participando no blogue = lidacoelho = Os vossos comentários fazem parte integrante dos textos. Por esta razão não fiz nenhuma alteração nem acrescentei alguma coisa mais. 
Reparto a minha alegria com todos de igual modo. Sem o vosso apoio e os vossos comentários não me seria possível esta caminhada.

Gostaria de continuar a contar com a vossa amizade que me é muito preciosa.
Prometo-vos continuar a fazer os textos dentro daquilo que sei, do que me lembra ou até de simples acontecimentos de cada dia.

Prometo-vos escrever cada dia com maior simplicidade e clareza de modo a tornar os textos ainda mais atractivos e participativos
Pelos erros, pelas gralhas e outras lacunas peço que me desculpem
Para todos envio um abraço de amizade com o mais profundo respeito.
Luíscoelho

domingo, 7 de agosto de 2011

A Maria da Luz

stock photo : A lifetime coconut basket

(foto google)


Simpática Senhora. Tinha uns olhos grandes e sempre sorridentes.
Fazia bolos tradicionais que vendia nas feiras e mercados ou ainda pelas festas populares. Empilhava os bolos dentro de uma poceira trabalhada. Depois cobria-os com uma linda toalha branca com as pontas metidas para dentro da poceira.

O marido ajudava-lhe a colocar tudo à cabeça. Num canto da poceira levava ainda algumas enfiadas de  pinhões. Com uma agulha e linha iam enfiando os pinhões formando um colar que as meninas gostavam de pôr ao pescoço. Nas mãos levava ainda uma saca com tremoços curtidos e outra de pevides torradas que vendia a copo ou com uma pequena medida de madeira.

Os dias da Maria começavam muito cedo. 
Saía de casa ao nascer do Sol e só voltava quando tivesse tudo vendido. 
Percorria distâncias entre cinco a dez quilómetros com o cesto à cabeça e seguindo por carreiros ou caminhos no meio de matas densas e escuras.

No mercado, escolhia um lugar e colocava os bolos bem à vista de todos, mas fazia também a sua propaganda comercial:
- Então freguesa não quer comprar um bolo...? São baratinhos...!
- Leve também tremoços ou pevides....São os melhores que se vendem por aqui!

Depois do primeiro negócio benzia-se com o dinheiro e dizia:
- Que nossa Senhora me ajude e que me dê boa venda....
A Maria da Luz gostava muito de falar e quando não tinha assunto, inventava. As mentiras eram tantas e tão grandes que já ninguém acreditava nela.

Umas vezes falava de grandes negócios que fizera e que lhe renderam umas patacas. Outras vezes falava dos seus conhecimentos onde já tinha pedido emprego para os seus rapazes.
Conhecia o Senhor comandante da Base Aérea de Monte Real e os donos dos melhores hotéis das Termas.
- Ah os meus filhos estão garantidos. Tem emprego certo...!

O Chefe da CP (Caminhos de Ferro Portugueses) já me disse que assim que eles façam a quarta classe que os leve lá. Devem começar logo a trabalhar. 
- Ai eu nem sei como é que hei-de agradecer a esta gente tão importante.....

- Estou aqui muito preocupada para chegar a casa. Tenho tantas coisa para fazer.......
Mas atacava novamente:
- Então e você não sabe que ....e lá começava outra história sem pés nem cabeça....
- Ai o meu homem hoje bate-me ....vendi tudo tão barato...Não havia quem quisesse comprar e eu não queria vir carregada outra vez..... 

- Ando aflita da minha espinha, sabe ?
Os médicos mandaram-me ir a banhos para a praia da Vieira, mas como? 
Os meus filhos não podem passar sem a mãe.... Talvez para o ano que vem. O meu filho mais velho, se Deus quiser, já vai trabalhar....

Um dia foi à fonte de Santo Amaro buscar água para fazer a ceia. As horas passavam e nada de voltar para casa. O homem estava desesperado e foi bebendo uns copos.
Noite fechada meteu-se ao caminho e foi procurá-la. Encontrou-a já de regresso a casa com a bilha da água à cabeça. 
- Olha lá são horas de chegar a casa...?  Tu não tens juízo nem vergonha....onde chegas tens que "botar conversa". Nunca te fartas de conversas...

- Oh homem, não me batas. Estive a ajudar o sr Neves a debulhar o milho e demorei mais um pouco. Não havia por lá ninguém para ajudar !
Quando a discussão começou a levantar de tom apareceu um estudante que se meteu à conversa com o marido da Maria da Luz.
Ela, assim que os ouviu falar, sumiu-se com o cântaro cheio de água. Foi para casa e começou a fazer a ceia.

Quando o marido regressou, já lhe tinha passado a fúria. Aquela vontade de partir tudo.
A ceia estava na mesa e tudo acabou bem.
Na semana seguinte, depois de cozer os bolos no forno, escolheu o maior de todos e foi levá-lo de presente ao estudante.

- Isto é para te agradecer. Se não fosses tu ele tinha-me batido! Disse-lhe ela ao chegar.
- Mas não é preciso nada, nem as coisas aconteceram por minha causa.
- Aceita e cala-te que eu é que sei quando ele está bravo.............

Não havia nada a fazer. Ela era mesmo assim. Para tudo tinha pé de conversa e parece que nunca tinha pressa de se ir embora. 
Repetia muitas vezes:
- Ai tenho tenho tanta coisa para fazer...nem sei por onde devo começar....e se o meu homem chega  a casa primeiro do que eu, vou ter de o ouvir ...ai vou, vou... 

O marido da Maria da Luz era um bonacheirão. De quando em vez bebia uns copos mais bastos para esquecer a vida dura que levavam. Cambalhota aqui... cambalhota ali, mas lá ia de regresso a casa. Nestas noites a mulher não lhe dizia nada. Ajudava-o a deitar-se, porque dormir isso ele fazia muito bem. 
Morreu ainda novo. Deu-lhe uma coisa. Dizia a Maria da Luz....

Alguns anos depois, ao anoitecer, vinha ela para casa carregada com a bacia da roupa lavada. Tinha passado a tarde toda no lavadouro público. Lavou a roupa dela e a alma de toda a freguesia. 
Nunca se calou enquanto teve com quem conversar.
Depois quando atravessava a estrada nacional 109, foi colhida por um carro. Teve morte imediata.

Cada pessoa da minha aldeia tem uma história dentro de mim. Como as conheci, as vezes que falámos e as suas particularidades. Se pudesse escreveria um pouco sobre cada uma.
Todas contribuíram com as suas palavras e a sua vida para que as recorde hoje com saudade e também o prazer de relembrar as suas histórias.
Luíscoelho


P. S - O final do texto é triste, mas foi assim a vida da Maria da Luz. Foi assim que ela acabou. Poderia ter escolhido outro, mas já não seria a mesma pessoa. Seria outra sem o olhar vivo desta minha vizinha, que naquela tarde dizia que ia tirar a carta de condução. (tinha sessenta anos)
Todos riram e disseram: - essa é branca....xiça...que imaginação....
- É verdade, tão verdade como nós estarmos aqui todos....Juro, juro e juro.... 
Para ela foi verdade...era assim que via....