sexta-feira, 1 de março de 2013

Marcações de terrenos

Na nossa aldeia as histórias aconteciam por tudo e por nada, mas  eram sempre acontecimentos importantes para todos.
Algumas coisas eram divertidas: as festas, os casamentos, a chegada dos emigrantes, a matança do porco etc.
Outras eram mais tristes: os doentes, os desentendimentos entre vizinhos, os funerais ou os acidentes

Havia também o trabalho comunitário:  arranjo dos caminhos públicos ou a reparação de alguma casa atingida pelo fogo ou derrocada.
Todas as pessoas eram moldadas por uma grande força de viver e lutar pela vida.
Em cada pessoa residia o sonho de um futuro melhor.

A palavra de um homem era como uma escritura. Todos cumpriam com o combinado entre todos. Eram as suas obrigações.  
Uma ou duas vezes por ano reuniam-se no adro da Igreja, depois da missa do Domingo e planeavam alguns trabalhos comunitários. Limpeza e arranjo dos caminhos.
No dia marcado juntavam-se todos e com as suas enxadas cortavam as silvas e outros arbustos que dificultavam a passagem. Tapavam os buracos e deixavam os caminhos transitáveis.

Eram pessoas simples, claras. Era assim porque era assim, e sempre foi assim. Não havia lugar para muitas perguntas.  
As sementeiras sempre foram feitas no tempo certo. Na Primavera.
As colheitas eram o resultado dos cuidados de cada agricultor ou da vontade de Deus. 

Quando faziam uma marcação de terrenos, porque se perderam os marcos ou porque surgiam dúvidas, juntavam todos os confinantes. Descobriam um marco e alinhavam o terreno com duas ou três canas altas até ao limite do terreno.  

Depois abriam uma cova e colocavam lá uma pedra grande no fundo e outra mais pequena em cima daquela de modo que ficasse à superfície.
Por último colocavam as testemunhas. Eram pequenas pedras que ficavam dos lados do marco principal.
Cada pedra pequena representava a direcção do outro terreno. Ninguém poderia mexer ou alterar a posição destas marcações.

Um dia dois agricultores levaram-se de razões por uma beira de terra. Cada um afirmava que era sua. Os ânimos estavam exaltados e um deles afirmou:
- Vou arrancar essas pedras. Esta beira de terra é do meu lado, pertence-me...
- Nem pense nisso, respondeu-lhe o outro. Este marco sempre aqui esteve. O senhor não pode mexer-lhe. Vou-me colocar em cima dele. Livre-se de levantar a enxada para o arrancar...

Percebendo as certezas do vizinho, saiu dali a resmungar e entre dentes disse:
- A cada um o que é seu - diz o povo e com razão...
- Nem dá-lo nem roubá-lo, acrescentou o outro, também convicto das suas razões.

Luíscoelho - Março 2013