domingo, 14 de setembro de 2008

Henrique

Data de nascimento 25/10/1943
O nosso menino.!!!
Nasceu de madrugada e foi assistido pela Teresa Caixeira( era a parteira daquele tempo). Uns dias de cama e a mãe recomeça a sua vida diária. O rapazote era bem constituído e lá foi resistindo e com o leite materno foi vê-lo medrar de dia para dia.
Os pais viviam da agricultura e para que tudo funcionasse bem o pai foi falar a uma moça das Lavegadas - Monte Redondo - para vir trabalhar aqui em casa.
Chamava-se Emília e era uma rapariga muito desembaraçada. Tratava da roupa do bebé, da comida e ainda tinha de acompanhar o patrão nas lides agrárias.
Um dia foram sulfatar as vinhas, nas encostas viradas para os campos do rio Liz e junto à linha do Oeste e levaram o bebé dentro de um cesto. Quando o comboio passou a Emília toda contente levantou o menino para ver o comboio e também para ele não ter medo, mas esqueceu-se de guardar os bois que estavam presos ao carro e quando veio o comboio, que naquele tempo fazia muito barulho, os bois assustaram-se e viraram o carro e a dorna.
Uma outra ocasião os pais saíram cedo de casa para tratar das sementeiras e pediram às suas sobrinhas que moravam na casa ao lado se podiam guardá-lo algum tempo.
Estava frio e deitaram o Henrique em cima de um banco grande junto à lareira onde ardiam uns paus grossos por baixo da panela de ferro onde coziam o feijão e a carne para o almoço. O bebé virou-se e zás ficou com o rabinho nas brasas.
Coitadas das primas o trabalho que isto lhes deu, mas conseguiram salvá-lo. As cicatrizes essas ficaram pelo tempo como marca da sua primeira aventura.
Cresceu depressa e cedo lhe foram dando mais tarefas e sempre mais arriscadas.
Tinha de guardar os irmãos pois era o mais velho e ainda tratar dos animais.
Havia cá em casa o porco macho. As vizinhas e conhecidas vinham com as porcas. Quando os pais não estavam o Henrique conseguia abrir a portinhola do curral e o animal saía e andavam por ali até que completasse a tarefa.
Um dia o porco atirou-se ao rapaz e levou-o na boca pelo pátio fora. Valeu-lhe a coragem da cliente que pegou num pau e conseguiu que o porco o largasse. Desta vez as cicatrizes foram um pouco maiores e lá o levaram ao Barbeiro. - O Sr Sousa.
Na aldeia todos tinham uma avença com ele e nestas situações só pagavam os materiais-
compressas, ligaduras e desinfectantes, outras vezes nem levava nada por atenção aos clientes.
Fez a escola primária numa sala ao lado da Igreja onde cabiam todas as classes desde a primeira até à quarta classe e só com uma única professora - A senhora Nogueira de Leiria.Faziam um intervalo ao meio da manhã e depois à hora do almoço. De tarde não havia intervalo.Acabavam ás 16 horas. Traziam trabalhos para fazer em casa e tinha de ir bem feitos porque senão havia reguadas nas mãos.
Esta escola era só para rapazes. As meninas era uma escola construída no tempo da minha mãe e onde ela fez a terceira classe.
Não repetiu nenhum ano e no final ainda fez o exame de admissão.
O pai estava na dúvida em deixá-lo ir estudar, mas a insistência foi tanta que acabou por ceder e foram fazer a matrícula na Escola Comercial e Industrial de Leiria.
Disse-lhe o pai: - Olha Henrique o primeiro ano que perderes é o primeiro ano que ficas em casa.
O seu gosto pelos estudos foi tanto que nunca reprovou e com 16 anos já tinha o curso concluído.
Concorreu para a Cuf no Barreiro mas, já nesse tempo, só entravam com padrinhos e ele não conseguiu. Inscreveu-se como aprendiz de electricista na Base Aérea de Monte Real e aí ficou até ser chamado para o serviço Militar.
Foi incorporado num batalhão para a Guiné onde permaneceu dois anos.
Ainda me recorda aquele olhar alegre no seu regresso. Recordo as suas construções de rádios sem pilhas nem corrente eléctrica em que conseguíamos ouvir músicas e notícias da época. O nome desses aparelhos parece-me que era «galhena»
O pai comprou-lhe uma bicicleta para ele poder sair aos Domingos. Na data uma bicicleta já era um luxo que nem todos podiam ter.
Era uma coisa tão importante que nos primeiros tempos estava ali junto ao quarto dos pais.
Poderia lembrar ainda outras situações como aquelas em que o pai se sentava ao pé dele e ambos tentavam resolver os problemas de matemática e outras coisas simples, vistas hoje.
Recordo também quando os professores exigiram um pincel para os trabalhos manuais e o pai cortou os pelos na cada do cão e fez um pincel muito original.
Recordo as suas corridas para apanhar o autocarro. Corria sempre como se estivesse a acelerar uma moto.À tarde a nossa gata ia esperá-lo ao pinhal. O Henrique dava-lhe sempre um pouco do seu farnel.
Gostaria que este pequeno retrato de família fosse completado pelos seus filhos pois foram eles que retiveram as últimas memórias