terça-feira, 6 de setembro de 2011

Assassíno

Estávamos a meio da manhã e numa aldeia pequena as boas e más notícias correm depressa.
Não sei como chegou cá a casa a notícia do assassínio de um homem na estrada Nacional 109 à saída da nossa terra. Sei que éramos ainda muito novos. Idade pré-escolar e que tudo aconteceu durante a manhã.

Corremos atrás dos mais velhos e fomos ver. Alguns foram descalços. Parece que os carreiros de pé  no meio dos pinhais eram ainda mais distantes.

O assassino seguiu a sua presa e foi atacá-la já fora da povoação.
O corpo de um homem com cerca de quarente anos, jazia tombado na estrada, ao lado da sua bicicleta.O sangue fazia uma pintura no pavimento.

O Tóino Serra matou-o com uma faca e deixou-o ali caído na estrada. Por remorsos ou medo foi esconder-se em casa de uns comerciantes, ali perto, onde  aguardou a chegada das autoridades.
Algemaram-no e meteram-no num carro preto que o levou para a cadeia.

Nesta altura o filho que era pouco mais velho que nós, rompeu num pranto que fazia chorar todos os presentes.
- Pai, paizinho porque fizeste isto...??....Vê agora como fica a nossa vida....!!
A mulher era de baixa estatura. Não chorava. Puxou os filhos para si e depois do carro partir meteu os olhos no chão e foram andando para casa.

Porque é que um homem  mata outro homem...?
Esta pergunta ficou sempre presente em mim como uma grande preocupação.
O que aconteceu antes deve ter sido muito grave para ele puxar de uma faca e degolar o outro ali sem dó nem piedade...


Nunca soube a razão porque ele matou o outro. A vitima ia de passagem. Foi à feira dos vinte e nove a Monte Redondo e já vinha de regresso aos Milagres onde vivia com a sua família.

Ele era mau, batia com violência na mulher e nos filhos, mas agora ia preso e ia para longe.
Algumas pessoas diziam:
- Isto são horas do diabo. Horas negras... que nos desgraçam a vida...
Enquanto outros com um ar de maior compreensão afirmavam:
- Na cadeia e no hospital todos temos um lugar...
- Ninguém pense que está livre

Esteve preso cerca de 25 anos. Quando voltou estava velho. As rugas marcavam-lhe o rosto gasto. Já não batia na mulher e os filhos cresceram e fizeram-se à vida. 
Vivia envergonhado. Tinha medo do olhar das outras pessoas. 

O povo dizia:
- Nenhum homem está livre de cometer uma loucura. No melhor pano caí a nódoa.
Luíscoelho