segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Era tarde

 
(foto google)

Regressavam a casa depois de mais um dia de trabalho na cidade e de aulas no Colégio. Iam e vinham todos os dias num Renault 5 velhinho, apresentando a marca do tempo nas tintas descoloridas e na ferrugem espalhada um pouco por todo o lado.

O fundo do carro estava roto. Quando chovia a água entrava e deixava os tapetes empapados por alguns dias.
Ao fim de semana abriam as portas e janelas e deixavam-no secar e arejar ao sol.

Os tapetes eram lavados e todo o carro ficava com um aspecto mais bonito. Um dia ao tirar os tapetes viram que a chapa estava muito mais rota do que parecia e era perigoso para as crianças. Não poderia continuar. Algum dos meninos poderia enfiar um pé naquele buraco.

O pai foi buscar duas tábuas, cortadas à medida, e colocou-as ali, de um lado e do outro. Ajeitou os tapetes por cima delas. Parecia que estava o assunto resolvido.

Ao jantar dividiam-se as preocupações. Ouviam-se as necessidades e os recados. Era a melhor hora para se falar das coisas de casa e como as iríam resolver.

Eles os mais pequenos estavam atentos. Pareciam viver cada dia as mesmas preocupações dos pais e quando lhes era pedida colaboração estavam sempre disponíveis e cheios de boa vontade.

Foram-lhes dizendo que tinham de trocar de carro por outro melhor e mais seguro. Talvez este ano se consiga juntar o subsídio de Natal e mais algum que tinham guardado. Vamos procurar saber de preços e de carros.

Nessa semana apareceu uma factura de telefone com o triplo do valor que costumavam pagar. Mais uma despesa para agravar a situação.

Nesse dia ao jantar falou-se da factura. Nunca se gastou assim tanto de telefone ! Não pode ser.....

Um dos rapazes disse:
- Fiz chamadas para Évora e não reparei no tempo. Peço desculpa...foi uma amiga da colónia de férias!...

Sinto muito, disseram os pais.... Vais ter que pagar esta conta.

Por vezes damos cabeçadas que nos ensinam mais do que grandes castigos ou discursos.

No dia seguinte esvaziou o seu cofre, mealheiro. Contou e recontou o dinheiro. Em segredo, pediu aos avós uma ajudinha e ainda antes de se deitar foi entregar aos pais o dinheiro daquela factura de telefone.

Ninguém lhe prometeu castigos. Apenas lhe fizeram ver os seus erros e que esta era a melhor forma de não voltar a fazê-los.

A vida continuou com o mesmo programa. Foram-se dividindo todas as preocupações de casa e da escola.
Os mais pequenos foram crescendo deixando os pais participar  nas suas conquistas e sonhos.

Nesse Natal (1989) conseguiram ter o carro novo. Era o mais barato da Opel, mas para todos foi a melhor prenda.

Luíscoelho