quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uma carta



(foto do google)


Passava já da hora do almoço, quando o carteiro chegou ali a casa dos tios com uma carta. Os cães não gostavam do carteiro. Ficavam doidos. Cercaram-no sempre a rosnar e se não fosse o dono ter-lhe -iam mordido a sério.

O carteiro parece que já estava acostumado com estas manifestações caninas.
- Então o que é isso...tanto barulho para nada...Eu não vos faço mal... Estejam caladinhos!

Era um homem forte e corado. Trazia uma sacola de cabedal a tiracolo e vinha numa motorizada vermelha.
Fazia-me muita confusão como é que ele conseguia dar a volta por toda a freguesia que era muito grande.

Tinha que saber os lugares todos e depois onde moravam as pessoas a quem devia entregar as cartas.
Chamava com força:
- Correio....Correi...o...Co...rreio...

Se não havia ninguem metia a carta por debaixo da porta principal.
Depois continuava com a sua corrida de mota até entregar todas as cartas.

Ali em casa dos tios fez o mesmo. Entregou o correio e seguiu o seu caminho, pedindo que açaimassem os cães porque eles poderiam fazer mal a alguém.

Era uma carta do Armandito que tinha sido hospitalizado para uma operação ao estomago.
Tinha ido para Coimbra e depois da operação ainda ficavam uns dias em recuperação.

O tio começou a ler a carta e logo nas primeiras palavras parou de ler impedido pelos soluços.
Os outros filhos que estavam por perto começaram também num grande pranto.
Ele apenas leu:
- Querido pai e manos, espero que se encontrem bem de saúde quando receberem esta minha carta.....

Pensei que o rapazito estivesse pior. Tanta gente a chorar só por aquela primeira frase....
O tio limpou a cara com as costas da mão, respirou fundo e continuou.

- Eu também cá vou indo bem, mas com muitas saudades de todos......
Novamente os soluços aumentaram e parou a leitura da carta. Bem, por este andar, vão chorar muito ainda, a menos que a carta seja pequena.
   
- Isto são apenas alguns dias aqui. Depois estaremos todos juntos.....
- E quando é que ele sai do hospital pai, perguntou a Maria Júlia...?
- Coitadinho do meu irmãozinho... e choraram todos mais uma vez...

Quando conseguiu chegar ao fim da carta, suspiraram de alívio e  começaram a dar beijos no envelope que depois apertavam contra o peito dizendo :
- Meu rico filho, meu rico filho...!

- Oh pai, agente vai visitá-lo se ele não vier para casa nesta semana?... Vamos..!?
- Não temos dinheiro para essas viagens e ele deve ter alta já na próxima semana.

Depois foram contando aos vizinhos  e aos outros familiares que tinham tido notícias do Armandito e que estava tudo a correr bem.

- Choramos tanto, tanto...Ferrou-se-nos uma saudade que nem ficávamos bem se não desabafássemos as lágrimas todas. Parece que rebentávamos. Era o mais novo de oito filhos e eram todos muito amigos.

As pessoas respondiam:
- O pior já se passou. Agora é preciso que recupere  e que fique bem de saúde.

No início da semana o Armandito teve alta médica e o tio foi de autocarro (camioneta) buscá-lo.
Agora ninguém chorava.
Alguns olhavam para ele tentando descobrir se estava inteiro ou se lhe faltava algum bocado.

Doeu muito menino...? Graças a Deus que já tudo se passou.
Olha, agora come e bebe para te fazeres um homem...!
Luíscoelho