domingo, 15 de junho de 2014

Sobreviver

(foto google)

A manhã corria serena. O tempo estava morno. Depois de publicar o texto: Um melro despertador, fui para a rua, daquele lado da casa.
Agora queria ver e ouvir de perto aquele artista da natureza. Queria descobrir a sua capacidade de cantar e encantar com tantas e tão belas melodias.  
Porém o melro, que é mais fino do que eu, sacudiu as asas, e foi abrigar-se no silêncio do pomar, na ramagem das árvores.


Não sejas medroso fugindo ao ar da tua graça
Vá lá canta mais pouquinho como é do teu destino
O teu cantar é tão belo, diria mesmo que é divino.
  
 Logo ao romper do dia ainda antes do Sol nascer
 Vens cantar alegremente debaixo dos meus beirais
 As mais belas melodias cheias de uis e ais 

Vá lá canta, canta sempre e com mais força
Esse teu assobiar dá mais vida ao teu redor 
E quem te deixa cantar apenas te faz um favor.  

O melro ficou mesmo envergonhado. Deixou de cantar. 
Continuei arrancando a erva das cebolas e outros trabalhos ali no quintal.
Cada um tem a sua organização. Enquanto eu cuido do jardim e das minhas culturas, o melro andava a construir o seu ninho em cima de algum ramo mais abrigado.  
Não posso nem devo interferir na vida deste passarinho preto e de bico amarelo.  

Os ninhos são construções circulares conforme o tamanho de cada ave. Juntam pequenas raízes que vão entrelaçando umas nas outras com paciência e sabedoria.
Na parte interior revestem os ninhos com materiais mais finos para lhes proporcionar conforto.  No exterior usam o barro para unir os materiais tornando os ninhos pesados e resistentes aos temporais.

Nos dias seguintes deixei de o ouvir cantar e logo fiz a pergunta: 
- Que lhe terá acontecido?  
- Será que mudou de lugar?  
Aqui ninguém lhes faz mal e eles convivem perfeitamente connosco. Saltitam até muito perto procurando pequenos insectos para se alimentarem.  

Mais tarde descobri o ninho abandonado. Estava ainda em construção ou em fase de acabamento. Quase feito.
Lá perto estava a minha gata amarela deitada ao sol.
Então está tudo explicado, pensei imediatamente. Comeste um e agora esperas que apareça o seguinte..."sua grande malvada"...
Sei que és uma grande caçadora, mas podias ter escolhido outra presa, talvez um rato, e há tantos por aí...
É a lei da sobrevivência.

Nos últimos dias tenho ouvido apenas as rolas que também cantam muito, mas estas são mais prudentes e os gatos não as conseguem caçar com tanta facilidade.
Os melros podem não ser bonitos mas o seu canto é dos mais belos que podemos ouvir assim como os rouxinóis e outras aves que ainda sobrevivem por aqui.
Junho/2014
Luíscoelho