terça-feira, 21 de outubro de 2014

07 de Outubro de 2014



 A manhã corria silenciosa. O dia não era de muito Sol, mas não chovia.  
O telemóvel quebrou o silêncio.
Alguém apareceu inesperadamente. Aquela voz que lhe invadia a casa estragou-lhe o dia e  ainda os dias seguintes.  
Começou um dialogo ou talvez um monólogo, pois só falava do outro lado.
O tio Luís estava abismado, mas os telemóveis são assim -  descarados e muitas vezes inoportunos. 
Ainda assim conteve-se para não lhe responder à letra.
Finalmente perguntou-lhe:
- Afinal diz-me o que é que tu queres? Não te adianta tanto azedume.
- Podes chegar aqui ao pinhal das Enxurgueiras?
- Claro, daqui por alguns minutos lá estarei. 
"Quem não deve não teme" - diz o povo.

O tio Luís, ao contar a história, começou a moderar a voz. As cores do rosto empalideceram. Parecia que se engasgava. Muitas palavras ficavam por dizer.
- Tenha calma tio.Tudo se resolve. Conte-nos lá o que lhe aconteceu?
- Quando cheguei ao pinhal, continuou, já lá estava o proprietário do outro pinhal  confinante e que havia feito o telefonema. O homem parecia desvairado.

- Aqui nunca conheci marco. Enquanto  falava começou a arrancar as pedras que serviam de marco e a jogá-las para o meio do mato. 
- Alto aí! Não mexes em mais nada, disse-lhe o tio Luís. Se não conhecias, perguntavas. Esse marco sempre esteve aí desde os tempo dos teus pais e dos meus.

O outro nem ouviu nem deu razão às palavras e às provas existentes no terreno. Arrancou as restantes pedras a que os antigos chamavam "testemunhas" e que eram colocadas lateralmente junto à pedra central, jogando-as também pelo pinhal.
- Arrancar um marco é crime. Sabias?
Estás a criar uma guerra entre nós e nunca saberás como vai acabar.

Estavam sozinhos. Não havia testemunhas. Tive medo de ser também agredido. Abandonei o lugar. Aquele vizinho parecia um demónio vivo...
Mais tarde e com testemunhas voltámos lá. 
O confinante arrancou o marco cavou o terreno, eliminando todas as provas do marco e outros sinais do terreno.
- Calma aí tio. Não se enerve mais, dissemos-lhe.
Esse fulano não presta. Perdeu o juízo e a razão.
Uns metros de terreno não fazem a diferença, nem valem que um homem se enerve dessa maneira. 
- Aquilo que mais me custa, disse, é a falta de respeito pelos mais velhos e a falta de princípios morais.

Sempre se ouviu dizer:
«Onde existem marcos, não existem dúvidas»

Quando lhe disse para recolocar tudo como estava respondeu:
- Não senhor, não ponho estas pedras aí nesse lugar. Foste tu que arrancaste os marcos.
Cada vez se encrespava mais como se isso lhe conferisse razão.
- Olha bem para o que fazes e o que dizes. Não tens razão para fazeres isto. É uma vergonha para as nossas famílias.
Acabaste de arrancar o marco e agora culpas-me a mim? Certamente não estás bem da cabeça.

- Sempre cortei o mato aqui deste lado, disse ele, convencido que isso lhe dava direito a uns metros a mais.
- Se cortaste o mato aqui deste lado foi porque não respeitaste nem os marcos nem os vizinhos, mas isso não te dá razão nem justifica os teus actos.

Que Deus nos livre dos gananciosos e dos loucos, concluiu o tio Luís, com um ar triste e pensativo.
E nós acrescentámos:
- Não foi exemplo nem ensinamento que os pais lhe tivessem dado. Eram pessoas de bem, concluíram. Mas no olhar do tio desenhava-se uma tristeza muito grande.
Luíscoelho
Outubro/2014