terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O pão do amor

Foto do google

Naquele dia o Sol acordou envergonhado e o frio parecia rasgar-lhe as mãos e a face. O seu olhar   estava longe de todo aquele movimento.Descia a avenida do Brasil e depois seguiu pela avenida dos Estados Unidas da América em direcção ao Campo Grande.


O Hermínio caminhava ao acaso. Parecia que fugia de alguma coisa. Caminhava alheio ao frenesim dos carros e autocarros que se amontoavam nos semáforos e se enrodilhavam na rotunda do Relógio. Os seus olhos seguiam as pedras da calçada como que envergonhados. 


Saiu da barraca, no bairro do Relógio, determinado a encontrar alguma resposta para as muitas preocupações que carregava naquela manhã.
Não tinha culpa de estar desempregado. 
Não tinha culpa da doença da mulher, nem dos filhos que vieram sem fazer conta.


Trabalhou como um moiro, abrindo as valas  nas ruas e passeios para os cabos de telefone, e outros dias para as águas ou o saneamento. Nunca reclamou de nada e também nunca faltou ao serviço  quer chovesse ou fizesse frio. 


Parece que os seus pensamentos pararam naquele dia em que o patrão avisou que ia fechar a firma por falta de trabalho. A concorrência é muita. Já não consigo pagar tantas despesas nem continuar com estes trabalhos. Passem pelo escritório para vos acertar as contas e rescindir os contratos.


Estas pequenas frases não o deixavam ver nem ouvir mais nada. Nem quis seguir no autocarro. Se andar a pé talvez me faça bem. Pode ser que consiga ver algum anuncio com interesse.
Continuava a ver apenas a figura do patrão e a recordar como ficou paralisado, sem forças para continuar. A picareta soltou-se-lhe das mãos.


Continuava com as suas perguntas:
- Acabamos o dia ? Viremos ainda durante a semana  ou o resto do mês....? Como é........? 
Reconstruía as informações do encarregado:
- Vamos acabar estes trabalhos aqui nesta rua, mas quem quiser sair já pode fazê-lo.....


Parece que deixaram de se ouvir os carros e todo aquele movimento diário. Não sabia se estava a sonhar ou a acordar de um pesadelo............ Aquelas frases queriam rebentar-lhe com a cabeça.
Seja o que Deus quiser...! Procurou encher-se de alguma coragem e esperança....
-Vou aproveitar todo o tempo que puder e até haver trabalho. Depois se verá o que vai acontecer....


Naquela manhã, doía-lhe não ter ainda solução. Tinha muito medo do futuro.
Pensava muito nos seus meninos. Eram tudo o que ele mais queria. Era por eles que vivia e trabalhava feito um escravo..........
A mulher, em casa, mesmo debilitada, procurava também um emprego e uma casa. Estava farta de viver numa Barraca  sem nada. 


Todas as semanas passava pelas assistentes sociais, na Câmara Municipal.
- Estamos a estudar o seu caso. Não está esquecida. Logo que encontremos emprego ou uma casa entraremos em contacto consigo. Vá procurando também....e assim sem grandes discursos a iam sacudindo todas as semanas.


À noite quando o marido regressava e todos juntos comiam um prato de sopa quente, iam trocando olhares interrogativos de um futuro incerto. Que será de nós....????


Recordavam os anos vividos nas suas aldeias, nas encostas da Serra da Lapa. Tinham saudades dos seus familiares e das festas e romarias onde se esqueciam das tribulações de cada dia.
Recordavam o seu sonho quando vieram para Lisboa, casados de fresco e guiados por outros vizinhos que lhes contavam maravilhas.


Recordaram ainda quando compraram os taipais da sua barraca e as telhas de chapa zincada.
Andámos ali aos domingos durante um mês para levantar isto tudo.
Todas as semanas saíam algumas pessoas do bairro de lata e logo vendiam as madeiras.


Os pobres com pouco se contentam e parecem que mesmo sem nada são felizes, dizia a mulher com os olhos fixos nos filhos e no marido.
Um dia havemos de ter sorte e uma casa para viver. Uma casa só nossa com um quintal para fazer uma horta.................Quem sabe...????
Luíscoelho