domingo, 25 de dezembro de 2011

A Ti Catrina


.Era uma senhora baixa e magra, mas de uma alegria contagiante.
Andava assalariada na agricultura para quem lhe falasse.
Vivia com o marido (o ti Jerónimo) no lugar do Casal. Era uma casa grande e com um alpendre largo virado a Sul. 

Aquele alpendre parecia ter sido construído para arrecadar o Sol todos os dias .
Ao fundo e ao meio desse alpendre havia uma porta de madeira com um postigo ou janela mais pequena na parte superior.


Quando alguém lhes batia à porta eles abriam apenas esse postigo pequeno e era por aí que falavam para o exterior.
Só lhes abriam a porta depois de confirmarem que eram pessoas de bem e cheias de boas intenções.


A ti Catrina tinha filhos, mas eu não os conheci. Foram para outras terras, muito novos, e por lá ficaram, construindo as suas vidas.


Eram um casal muito pobre. Parece que quando eram novos, eram mais trabalhadores e mais cuidados com as suas roupas e a sua alimentação.


Recordo-os quando vinham aqui para casa trabalhar. Chegavam cedo  para beberem uma pinga de água-pé. Parecia terem mais sede do que fome ou vontade de trabalhar.


O pai que os conhecia bem, enchia-lhes um pipito de madeira com vinho, cerca de dois litros.
Depois dizia-lhes levem os sachos e vão andando  para o paúl. Comecem a sachar (mondar) o milho que eu já vou lá ter.


Quando o pai chegava com o carro de bois, já eles tinham bebido a pinga toda. O resto da manhã bebiam água. Havia ali perto a fonte do lago, onde corria água fresca todo o Verão.


O ti Jerónimo andava com as calças remendadas. Eram mais os remendos que o tecido original. Ela, a mulher, andava sempre descalça.


Na cabeça usava um chapéuzinho redondo e era lá que segurava as pontas do lenço florido que lhe guardava a cabeça.


A parte da manhã ainda trabalhavam com alguma animação, mas de tarde depois do almoço era muito mais difícil.


Ela começava a provocar o homem. Relembrava continuamente os seus erros, culpava-o por ter gasto todo o dinheiro que tinham e como se isso não bastasse chamava-lhe nomes feios:
- malandro, mentiroso, praticante, bêbado e ladrão muitas vezes....


O homem envergonhado nem lhe respondia, mas de quando em vez mandava uns "roncos" como que a avisá-la...Cala-te! Logo à noite nós falamos...e roncava mais duas ou três vezes...


Recordo uma manhã quando a mãe me mandou levar-lhe uma garrafa de vinho ali ao fundo do nosso quintal.


Quando me viu por perto, enterrou o sacho na terra para ele se segurar. Endireitou-se metendo a costa da mão junto ao quadril e respirou fundo...  depois sorriu-se para a garrafa...


De uma assentada leva-a à boca e chupa, chupa ...mas nada...Tira a garrafa da boca e olha melhor para ela ainda com a rolha no sítio e exclama:
...ora...pois... porrinha...assim não vale...


Nós estávamos perdidos com tanto de riso. 
Imaginem que a rolha não estava segura. Ela teria engolido tudo ou ter-se-ia engasgado a sério.Depois bebeu quase tudo de uma golfada...Fiquei convencido que, se não fosse por vergonha, tê-la-ido despejado de uma segunda vez. 


Por vezes ia sozinha cegar erva para as vaquinhas. Então cantava o tempo todo. Eram canções que se vendiam nas feiras. Fados tristes em quadras ou desgarradas que ela ia repetindo.
..."e a desgraçadinha...pobrezinha...assim ficou"


À noite vinham sempre aqui a casa. Queriam levar mais uma pinga para beberem antes de se deitarem. 


Alguns dias a mãe, com pena deles. dava-lhes um prato de sopa, pois na maior parte dos dias eles apenas bebiam  ou faziam migas de "cavalo cansado." migas de pão com açúcar e vinho.


Depois de sairem o portão grande de madeira, seguiam como um par de namorados, cantarolando algumas cantigas.


Por vezes, no escuro da noite e a coberto das árvores que ladeavam o caminho, ouviam outros passos e de imediato perguntavam:
- Quem vem lá....??? se caminham por Deus e por bem sigam em paz...


Os outros respondiam:
- Somos gente de bem...não fazemos mal... vamos de regresso a casa...


A ti Catrina tinha muito medo dos cruzamentos nos caminhos, onde diziam que apareciam coisas estranhas ou do outro mundo...


Hoje não resta nada daquela casa grande onde viveram e morreram.
Luíscoelho


Nota: o nome da senhora era Catarina, mas todos a chamavam assim - a ti Catrina.


(texto revisto e rectificado em 2012/Dezembro/16)