segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Domingos Domingues


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(foto google)




Domingos Domingues viviam perto da Igreja. Habitavam uma casinha velha, igual a muitas outras aqui da aldeia. Em frente existiam duas figueiras frondosas e retorcidas pela idade.

Viviam da agricultura e tinham dois filhos. O mais velho chamava-se Domingos e o mais novo David. Entre eles havia uma diferença de idade bastante grande, cerca de dez anos ou mais.

O primeiro era um rapaz alto e bem constituído. Tinha feito o exame da quarta classe e  foi aprender a profissão de carpinteiro.

Os pais, tinham muito orgulho naquele filho,  pelo seu porte físico e também pelas suas conversas. Sabia apresentar-se em qualquer lado sem medo e sempre com uma postura convidativa e cativante. 

Falava de muitas coisas que nem todos sabiam porque ele aproveitava os tempos livres para ler bons livros. 


Quando lhe pagavam algum serviço, pela reparação de móveis ou outras coisas que ele sabia fazer, guardava o dinheiro e metia as notas dentro de um livro da escola primária.

Um dia, a mãe, que sabia do seu segredo, desabafou para outras mulheres:
- O meu filho é rico....tem muito dinheiro escondido num livro...
...Assim até eu gostava de estudar...e ver tantas notas guardadas. Parecem novas....!


...Os meus pais, não me deixaram ir à escola. Apenas me deram esta enxada para cavar a terra. ...Só sei fazer isto...puxar terra para os meus pés... e, dizendo isto, a sua voz desaparecia com a emoção...

O Dominguitos namorava uma moça aqui da aldeia e ambos se entendiam. Entre eles havia respeito.

Um dia, foi às sortes com os outros rapazes da sua idade e foi alistado no exército. Os pais estavam ainda mais orgulhosos daquele filho. Com a farda vestida parecia-lhes mais alto e mais formoso.

- O meu Dominguitos...dizia a mãe, é a coisa melhor que eu tenho neste mundo. Só ele me faz  sentir bem. Nunca reclama de nada. Nem da roupa, nem da comida. 
...Às vezes, é ele que pega no ferro, e arranja as suas camisas e calças...

Nesses anos, rebentou a guerra em África e o Dominguitos também foi mobilizado. Era condutor auto e partiu com o contingente para Luanda.

O pai desfez-se em pedidos aqui e alem, onde podia chegar, para lhe desmobilizarem o filho. Não conseguiu. O rapaz embarcou com os outros militares com destino a Angola.

A ti Conceição andava desesperada. 
Chorava e lamentava a sorte do filho noite e dia. Chegou-se mais à Igreja e rogou a todos os Santinhos da sua devoção, que lhe guardassem o seu menino. 
...Meu rico filho..., meu rico filho...não há direito...


Todas as manhãs, corria descalça para a Igreja. Embrulhava-se num xaile preto e  assistia à missa sentada no chão. 


Por vezes as suas preces eram superiores às do Sacerdote e as suas lágrimas corriam apressadas num rosário de pai-nossos e avé-marias.  

O filho, vendo-a assim arrasada e sempre triste dizia-lhe: 
- Mãe, não te amargures mais. Nós vamos para Luanda que é uma cidade grande. Lá, não há guerra. Por favor não chores. Sabes que eu também fico triste por te ver assim....

- Ai meu rico filho... se eu pudesse "deitar fora" esta dor que tenho cá dentro do peito...era a mãe mais feliz do mundo...
...não me leves a mal...mas eu nem sei onde ando. Parece que entrei no inferno...

Depois do embarque do filho, ela quase deixou de comer. O homem ralhava com ela porque nem fazia os trabalhos em casa nem no campo. A ti Conceição andava seca. Ninguém a compreendia nem ela conseguia ouvir ninguém. 

No verão seguinte receberam a notícia de que o  Domingos tinha sido ferido numa emboscada e que foi evacuado para o Hospital Militar de Lisboa, para ser tratado.../.... 

Contaram-lhe a história assim:
"Seguiam todos numa coluna militar e foram surpreendidos pelo inimigo. Os nossos soldados  reagiram e mataram muitos, mas houve um preto que se escondeu atrás de uma árvore muito grande.

O Domingos pediu que não o matassem. 
- «Deixai-o ir...Não o matem...»
Mas esse mesmo preto, atirou certeiro e feriu-o gravemente, deixando-o às portas da morte". 

Esteve cerca de trinta dias no hospital militar, mas não resistiu aos ferimentos.
Faleceu no dia 26 de Julho de 1961, com vinte e três anos.
Foi o primeiro soldado desta freguesia a morrer em África e um dos primeiros a nível nacional. 

Recordo o seu funeral. 
Levaram a urna a casa dos pais, mas não a abriram. As pessoas aqui da terra e de outras freguesias vizinhas choravam com muita intensidade, mas os militares graduados mandaram-nos calar. 
- Silêncio...Silêncio...!
Disseram eles, num tom arrogante. Todos se calaram de uma só vez.

A Igreja, as ruas e o adro estavam completamente cheios de povo.
Respirava-se o medo da polícia. Todos estavam com medo da PIDE, que andava por ali misturada com o povo.


Ninguém arriscava dizer  mal do Estado Novo, nem da guerra que lhes roubava os filhos.
Olhavam-se nos olhos com dor e revolta.
Duas mães abraçadas à saída da Igreja diziam:
-Eles, os nossos filhos, não são nossos...são só emprestados. Depois seguem a vida deles...


Junto ao cemitério os soldados alinhados dispararam três salvas de fogo de espingarda em sua homenagem.

Os pais envelheceram. Ele deixou crescer a barba e a mulher sempre de preto já não ia tantas vezes à Igreja. Afinal os Santinhos não lhe atenderam os pedidos.
Agora queria ir para junto do seu menino....


A ti Conceição morreu pouco tempo depois, não conseguia comer. 
- A comida não me passa daqui para baixo...e apontava a garganta.


O pai Domingos Domingues também não resistiu. O seu coração dava sinais de cansaço. O desgosto matou-os antes do tempo.

Hoje o nome do Domingos consta de uma lista de soldados do Concelho de Leiria, que morreram em África.

A construção de um mural com o nome dos nossos heróis, foi a última homenagem que a Câmara de Leiria  e Governo Civil mandaram construir junto ao Jardim Luís de Camões no coração da nossa cidade.
Luíscoelho