quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ana


Foto google


Entre duas taças de sopa, senti que te aproximavas e que querias contar-me a tua história. A sopa não era nada de especial, mas tudo o que foste dizendo foi pesado demais .

Gostaria de saber porque me escolheste. Lentamente, com a suavidade do vento, confidenciaste-me os teus segredos, pedaços de ti. Notas tão íntimas que não relatas ao teu médico, às amigas de infância nem aos teus familiares.

Todos os dias, pareces ganhar coragem e soltas um pouco dessa cor preta com que te vestes diariamente, protegendo-te.
Olho dentro dos teus olhos e sinto a tua delicadeza e doçura.
Dou comigo a imaginar o quanto serias mais bela antes de te deixares enfeitiçar pelas dúbias palavras de amor que te conduziram a teias de mágoas pesadas e traiçoeiras.

Ao ouvir-te, vou construindo dentro de mim uma outra pessoa, mais bonita. Não consigo deixar de me preocupar com os teus problemas e as tuas angústias.
Imagino a tua dor e o vazio desse mundo onde te escondes, repleto de medos que te perseguem e o sofrimento que tu própria alimentas.

O teu filho, o Carlitos, partiu num momento crucial: quando mais precisavas dele.
Nada, nem ninguém o conseguiu substituir na tua vida...
Aquela estrada foi traiçoeira. Os sonhos que o acompanhavam e iludiam naquele dia, não lhe deixaram ver a carrinha naquela  curva da estrada. Foram estes os seus últimos sonhos.

Demoraste a revelar-me tantos pormenores. Sentia que não confiavas em ninguém. Em ti persiste o medo que alguém possa ainda levar o teu Carlitos, O menino que ainda mora em ti.

Agora já ninguém o alcançará. Transformou-se numa estrela brilhante que te enche a alma de luz. Está perto de ti...e não te quer ver a chorar.
Quer-te mais bonita ainda, para assim, poder emitir o brilho do seu orgulho.

O teu menino continua jovem. Os anos não lhe fizeram as marcas que vemos em nós. Continua também a dar-te razão pela coragem que tiveste ao fugir do pai dele: um homem mau, destruidor de um lar e lentamente de duas vidas. O ciúme também mata.

Queria tanto ajudar-te mas não sei.
Limito-me a ouvir-te e a dizer-te que muito admiro essa tua coragem. 
Lentamente irás conseguindo viver a tua própria vida e naquelas noites sem dormir, quando a saudade aperta os teus pensamentos, terás sempre uma estrela a sorrir para ti. 
Luíscoelho


(Texto revisto e alterado em Janeiro/2012)