quinta-feira, 17 de abril de 2014

Pesadêlos

 
(foto google)

O Zé teve um dia longo. Estava cansado. Aquela dor nas costas era um espinho que lhe tirava o sorriso, mas não se queixava. Não falava das suas dores à família. Para quê sobrecarregá-los com estas maleitas? Vamos indo como pudermos e que Deus nos ajude a todos. Dizia apenas nos seus pensamentos.
Depois da ceia tomou os medicamentos. Agora precisa de alguns comprimidos para o colesterol, para a próstata e para controlar o açúcar no sangue. Com seis décadas e meia o seu organismo já apresenta algumas falhas que é preciso acertar. A seguir foi passar-se por água. Um banho de chuveiro com água morna não lhe amaina as dores, mas sempre lhe suaviza a pele e os pensamentos. Parece que fica mais leve.
Vestiu o pijama e disse para a mulher:
- Vou-me deitar. Estou cansado!

As noites eram um tempo de silêncio absoluto.
Adormecia fazendo uma pequena oração de agradecimento a Deus pelo seu dia e pela sua família.
Já não acreditava em milagres nem promessas dos políticos. A vida foi-lhe ensinando a viver com o que conseguia em cada dia.
Não tinha reservas. Nem agora podia fazê-las. Cada dia os seus rendimentos eram menores face a tantos aumentos.

Não suporta os noticiários que metralham as pessoas com cortes nas pensões e nos salários. Logo depois outros cortes na saúde e mais impostos sobre a água, e o lixo, mais taxas na TV e nos audiovisuais, na electricidade, nos combustíveis e transportes…
Tiram rendimentos e aumentam impostos. São dois cortes simultâneos e agressivos. Roubaram o subsídio de Férias e de Natal e depois o primeiro ministro diz desassombradamente ao país:
- Não sejam piegas…
Eu cá respondo:
- É descaramento a mais. Simplesmente vergonhoso e humilhante.
Alguém dizia e com razão:
- Quem diz mentiras sua boca suja.

O Zé acordou cedo e logo os mesmos pensamentos lhe saltaram à frente. Era mesmo um assalto.
- Ou o dinheiro ou a vida! É uma ordem geral.
Dizem que há necessidade de acertar as contas públicas, mas não percebo como é que essas contas são cada dia maiores. Anda por aí mãozinha escondida que vai sacando, sacando…Só pode!
Vivemos num país que perdeu tudo o que tinha de valor e agora ser grosseiro e desonesto é a nova forma de fazer política e de educar os jovens.

O Zé estava incomodado. Desenhava-se um futuro negro. Onde é que tudo isto irá chegar?
Onde estará a justiça?
Afinal que contas são estas? Como é que são feitas?
Será que dentro do actual governo existe uma contabilidade paralela?
Só pode…só pode!
Um dia estamos fora da crise, mas depois, no dia seguinte, a dívida pública é maior, muito, muito maior…Alguém entende?
Expliquem como é possível um estado de “tanga” a oferecer carros de luxo em sorteios semanais?...


Sem respostas para tantas dúvidas saltou da cama e pediu a Deus forças para se equilibrar de pé. Aquilo estava a dar-lhe a volta à cabeça.
- Bem vamos lá a ver se me aguento. É que, se caio na desgraça de adoecer, levam-me para um hospital público e matam-me porque já não posso produzir nada. Eu que trabalhei uma vida inteira agora sou culpado das dívidas que estes políticos contraíram e, pior um pouco, vão alimentando.
Será mesmo um pesadelo que estou a viver? Não me bastam as minhas dores?
Luíscoelho

17/Abril/2014
Desejo a todos  uma Santa Páscoa - Saúde e Paz.