sábado, 5 de julho de 2014

A Pedra



(foto google)

Era um penedo de granito grande e arredondado e estava colocado do lado direito do portão grande de madeira à saída do pátio. Tenho a certeza que usou muita imaginação e técnica para transportar aquela pedra até à entrada de casa. Deve pesar várias centenas de quilos.
Um dia, em conversa, explicou que aquele penedo servia para obrigar a roda do carro de bois a afastar-se da parede.
Para entrar e sair do pátio nem sempre se conseguia fazer a curva de modo que a roda não empancasse na parede. 

Mais tarde, quando já não conseguia trabalhar nos campos, vinha sentar-se ali em cima daquele penedo. Parecia ter criado uma relação de amizade com aquela pedra. Ali tinha mais liberdade de movimentos e pouco lhe incomodava ver desperdícios espalhados à sua volta. Não incomodava ninguém.
Aproveitava o tempo para fazer aquilo que gostava e que a sua imaginação lhe ia desenhando.

Um dia encontrou um molho de fitas plásticas coloridas e resistentes. Estas fitas são utilizadas para apertar materiais de construção - telha ou tijolo, mosaicos, etc. 
Primeiro fez com elas um tapete onde jogou com as cores formando riscas e quadrados simétricos. 
Depois descobriu que rasgando aquelas fitas, em tiras mais finas, elas ficavam mais maleáveis e era possível fazer outros trabalhos. Dando asas à sua imaginação construiu cestos e revestiu garrafas de vidro de todos os tamanhos e formas. 

Todas as manhãs, depois de tomar o café, ia até ao seu banco de pedra e começava a trabalhar as suas ideias. Dava gosto vê-lo torcendo as fitas em volta de uma garrafa ou escolhendo as cores de modo a dar a tudo um ar mais fino e colorido.
Alguns amigos vinham visitá-lo. Nessas horas parava os seus trabalhos. Gostava muito de conversar. A sua memória prodigiosa tinha presente os seus tempos de menino, de jovem e também de homem activo. 

O respeito era um dever sagrado. Nunca se deixou influenciar pela calúnia nem pelos boatos infundados. Fazia as suas leituras dos acontecimentos sempre com muita prudência e manteve-se lúcido até ao final dos seus dias. 
Mereceu o respeito e o carinho de todos quantos conviveram com ele e também puderam admirar os seus trabalhos.

Hoje, a rocha continua num canto do jardim. A recordação do avô habita aquele espaço assim como alguns dos seus trabalhos presentes por toda a casa.
Não se podem contar os dias em que parou os seus trabalhos para brincar com os netos nem quantos se deixou embalar nas suas brincadeiras durante as férias grandes do Verão. 

Um dia fomos encontrá-lo a construir um avião com folhas de cartolina. Usou toda a sua imaginação para construir sem cola nem outros materiais. As rodas são as tampas das garrafas de cerveja. Está proporcional no tamanho das asas ou do corpo central.
O avião colado aos seus dedos parecia que ia levantar voo para aterrar de seguida nas mãos dos netos que lhe prolongavam a vida e os sonhos. 
Os seus tempos foram difíceis, mas ensinaram-lhe muitas coisas e a sua inteligência protegeu-o do esquecimento. 
Julho/2014
Luíscoelho