domingo, 13 de julho de 2014

Segredos

O Paulo namorava com uma linda rapariga. 
Ela, além de ser muito bonita, era também desejada por todos os rapazes da aldeia.
Eram parentes em terceiro grau. O Paulo e ela gostavam de se tratar por primos. 
Os filhos dos irmãos do pai ou da mãe são primos direitos ou em primeiro grau.
Depois os filhos desses primos são primos em segundo grau e por último os filhos destes serão primos em terceiro grau. A escala da linhagem continua.

Além da sua formosura era também filha de uma das famílias mais ricas da terra. Possuidores de muitos pinhais, terras de cultivo e de grandes vinhas. 
A conquista não foi fácil.
Era preciso que os pais dela aceitassem o namoro.
O noivo deveria ser trabalhador e ter ainda outras qualidades de respeito e honestidade.

O tempo de namoro prolongou-se por mais de dois anos. Tempo suficiente para aprenderem a amar-se e a respeitar-se. Aprendiam também a conviver socialmente com as famílias de um lado e do outro. Não eram permitidas grandes familiaridades entre os noivos.
Os beijos não existiam com a facilidade com que hoje se troca um beijo como um cumprimento.

O Paulo foi para a tropa. Estava perto e sempre que podia vinha à aldeia ver a sua família e também a namorada. Nesse tempo já tinha uma bicicleta para fazer as viagens. Entendiam-se bem e havia respeito de ambos os lados. Assim que pôde pediu a moça em casamento e de imediato começaram a construção da sua casa.

O Paulo foi tentando a sorte. Cada dia procurava ir um pouco mais além. Aconteceram os beijos às escondidas. Rápidos e silenciosos. Depois aquelas mãos atrevidas subiram e desceram transportando desejo e algo mais.
Dois meses antes do casamento o Paulo conseguiu entrar em casa. Convenceu-a.
Depois da primeira vez tudo se tornou mais fácil. Gostava ele e gostava ela. Brincavam.
As noites eram o seu esconderijo e o silêncio revestiu-os de graciosidade e prazer.

Algum tempo depois começaram os enjoos. 
- Estou grávida, disse-lhe a medo.
- Trabalho feito já não mete cuidados, respondeu o Paulo. Já falta pouco tempo para o nosso casamento.
Vamos guardar este segredo só para nós e tu vais ter cuidado para que tudo corra bem até ao fim.
- Mas isto foi um pecado...Vou confessar-me. Não quero viver nesta dúvida e com este medo.
- Olha lá menina este é o nosso segredo, só nós dois é que sabemos e já é muito, se souberem três é demais.
Nem penses em  confessar ao Padre nem a ninguém das nossas vidas.

Vamos amar o nosso bebé e pedir a Deus que ele venha bem e com saúde. O resto tudo se esquece. Depois de casados ninguém te perguntará se foi antes ou depois nem se foi uma única vez ou se todos os dias havíamos de nos aperfeiçoar ainda mais.
Agora só devemos tratar do nosso casamento.

Como ainda eram parentes em terceiro grau o Senhor Prior exigiu um imposto para lhes autorizar o casamento. As leis canónicas não permitiam o casamento até ao terceiro grau. Se os noivos quisessem casar-se teriam de pagar uma espécie de multa. Seria maior quanto maior fosse o grau de parentesco.
Os mais penalizados seriam os primos direitos ou em primeiro grau e depois ia decrescendo conforme a categoria. Diziam que isto era para evitar consanguinidade. 

Os bebés nascidos de pessoas com graus de parentesco próximo poderiam ter graves problemas físicos ou mentais. 
Correu tudo como o previsto. O Paulo e a mulher estavam satisfeitos.
Oito meses depois do casamento nasceu um belo rapaz que os encheu de alegria.

O Paulo contou este episódio das suas vidas por duas ou três vezes e apenas no meio familiar. Sentia-se um herói.
Ela, ao contrário, ficava muito envergonhada e dizia-lhe abertamente que estas conversas não eram para  divulgar.
Segredos são segredos e devem ser guardados.
- Sabemos nós os dois e já foi muito...todos os outros serão demais... 
Luíscoelho
Julho/2014