sábado, 11 de setembro de 2010

O Pinhal do Rei


Foto colhida no Blogue Dias com árvores


O pinhal era grande e vasto, cheio de pinheiros frondosos e de um encanto que nos levava a imaginar uma infinidade de coisas e animais perdidos na sua vastidão .

Diziam que o pinhal foi mandado semear pelo Rei D.Dinis – O Lavrador.

Começava para lá dos campos do rio Liz, do lado Poente, e estendia-se até ao mar.

Era um mundo. Uma mata cerrada, onde poderíamos facilmente perder-nos.

Havia uma época em que  autorizavam ir lá e trazer carradas de mato. Ainda assim, esses dias e semanas, eram divididos por todos os lugares aqui perto, de modo a não entrar em conflitos com os vizinhos.

O mato era utilizado para os currais dos animais domésticos, criando-lhes camas secas e confortáveis aos bois e aos porcos ou ainda as aves de capoeira.

Saíamos de casa duas ou três horas antes do amanhecer. As vaquitas puxavam o carro, indo sempre à frente alguém que conhecia aqueles  "aceiros" - Caminhos abertos no meio do pinhal em linha recta até se perder de vista.

Devíamos estar na mata ao amanhecer para juntar e carregar.  Quando o sol começava a aquecer,  as moscas  tornavam-se insuportáveis, para nós e para os animais. Com o calor era mais difícil fazer as carradas de mato bem feitas.

Havia um certo cuidado em fazer de todo aquele trabalho com arte. Ninguem gostaria de ser a "chacota" dos outros. 

As entradas e saídas eram sempre efectuadas junto à Casa dos Guardas. 

Os guardas tinham uns ferros e perfuravam as carradas de mato para se certificarem de que não tínhamos cortado alguns pinheiros, pois isso era proibido.
No Inverno, tínhamos de seguir a pé para não enregelar com o frio.

Os pés gretados a pisar o chão quase nem os sentíamos, mas o desejo de ser dos primeiros e de voltar cedo nem se reparava na dor.
Um dia já tínhamos a carrada quase feita, mas o carro deu um "solavanco" e desmoronou-se tudo para um e outro lado. 

Por lá ficámos, a Mãe em cima do carro com um ancinho, sempre a fazer a carrada em camadas certas. Puxando o mato de um lado para o outro e segurando as "paveias" que eu lhe ia atirando lá para cima. 

Quando terminámos estava lavado em suor. Dei uma volta de corda a segurar o mato e ajudei a mãe a descer. Reapertámos a carrada e começamos a caminhada de regresso. 

Com os nervos - "à flor da pele"- nem conseguimos comer o farnel que levámos.
Graças a Deus que o resto da viagem correu bem. Comemos então alguma coisa quando chegámos a casa e depois fomos tratar de outras sementeiras que deviam ser feitas naquela época.

Naquele tempo tínhamos os nossos pinhais sempre limpos e quando nos dávam este mato no Pinhal do Rei ficávamos sempre contentes pois era um mato melhor para acamar os currais do gado e para estrumar as terras nas sementeiras.

Ainda me lembro, contava a mãe, de pedir aos meus pais para nos deixar ir às Festas do Senhor Jesus dos Milagres e a Avó disse-me:
- Sim senhor, podem ir, mas primeiro vão à Mata e trazem uma carrada de mato. Assim foi! Saímos mais cedo ainda  e lá fomos,eu e os tios. 

Juntámos, carregámos e voltamos ainda a tempo de mudar de roupa e fazer um farnel para levar para a festa. Neste tempo ir à festa era ouvir a missa e o sermão e ainda ir na procissão.

Gostávamos de ficar por lá até  à noite, de ver o fogo de artifício e ainda nos divertíamos no bailarico. 
Outros tempos de sacríficios que vocês nunca conheceram.
Tantas coisas que os pais nos contavam ao serão, para não adormecermos antes da ceia estar pronta.
Luíscoelho