segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Parvo da Arroteia

Rosas. Fotos
(foto Google)
Estas rosas são o meu carinho para todos
os pobres do mundo




Lembro de ouvir falar deste homem, e recordo como todos se riam das suas partidas, da sua simplicidade e dos seus dizeres.

«dá-me dez... que eu dou-te cinco» 
«Maria dá-me sopa...tenho a barriga a dar horas»
Seriam expressões usadas por ele ou que lhe eram atribuídas.

Não sei o seu verdadeiro nome. Se era António, Joaquim ou Manuel. Apenas lhe chamavam - o Parvo da Arroteia.
Era ainda menino, e já ele passava regularmente pelas aldeias ao redor batendo a todas as portas.

Era velho e caminhava sem pressa. Para ele, parece que o tempo não tinha valor. Os dias eram todos iguais assim como as suas preocupações. 
Com Sol ou com chuva ele caminhava por todos os caminhos sem se enganar ou se perder.


Não era alto nem baixo. Tinha uma estatura normal e a cor das suas roupas enquadravam-se com castanho dos caminhos de terra batida, poeirentos e cercados de grandes silvados.
Agasalhava-se com roupas gastas e desajustadas do seu tamanho ou ainda da época do ano.
A mesma roupa servia para todos os dias, quer fizesse frio ou calor.

Por cima de todos aqueles casacos compridos trazia uns alforges. Eram dois sacos ligados entre si e com cinquenta centímetros quadrados cada um. Enfiava a cabeça por uma abertura no meio deles ficando um para a sua frente e outro para trás. 


Dividia as esmolas pelos dois sacos. Na parte da frente colocava a comida: pão ou carne salgada. 
No saco que ficava nas costas colocavam feijão, batatas ou mesmo hortaliças.

Transportava ainda uma lata para cozinhar um caldo quando não tinha mais nada para comer. 
Quando lhe davam sopa, entornava-a dentro dessa lata e depois bebia-a sem pressa, saboreando cada gole como a melhor coisa deste mundo.

O cabelo e a barba confundiam-se na cor grisalha e emaranhada, não deixando perceber o tamanho de um, nem de outro. A completar o quadro tinha um boné com uma pala que lhe escondia os olhos. 


Um dia pensei, enquanto olhava para ele:
- Que lhe terá acontecido...? Porque lhe chamam parvo...?
Será que tem uma casa...?... e família...?
Perguntas que ainda hoje se mantêm vivas e sem resposta.

Ainda ouço o modo como chamava à nossa porta:
-Truz, truz, truz...Alguém me dá uma esmola por amor de Deus... e das alminhas que Ele lá tem...?
Depois começava numa oração de pai-nossos e avé-marias até que lhe viessem dar alguma coisa.

Recebia a oferta e fazia novas orações agradecendo a esmola.
Depois partia assim como veio no silêncio dos caminhos, apenas seguido por algum cão mais atrevido.

Para ele era indiferente o tempo ou o trabalho nos campos. Vagueava perdido, semanas a fio, correndo todas as casas. 
À noite, procurava um telheiro abandonado, um palheiro cheio de feno para os animais e aí se recolhia para dormir durante a noite. 
Outras vezes procurava um abrigo natural, numa encosta soalheira, protegida dos ventos frios e húmidos do norte.

Um dia, o Parvo da Arroteia caminhava pelo Caminho de Ferro do Oeste. Não viu, nem ouviu o comboio e lá ficou despedaçado. Ninguém sabe se foi ele escolheu este fim ou se foi colhido pela pouca sorte dos seus dias.

Nesse dia o pai fez de ordenança. Foi designado pelo Regedor para estar ali de guarda ao cadáver até que as autoridades viessem e dessem ordem para o levantar e transportar para o cemitério.
A nós não nos deixaram ir ver.

Todos os dias passavam por aqui pobrezinhos pedindo uma esmola por caridade e por amor de Deus, mas este foi o que mais me marcou, talvez pelas histórias que contavam dele.


Um dia passou por aqui um pedinte que trazia um cavalo preso pelas rédeas. Dizia que um grande incêndio lhe tinha levado tudo. Só ele e o seu cavalo se salvaram.
Recebeu a sua esmola e partiu na companhia do cavalo, carregado de coisas, que nem eu sei dizer para que lhe serviam. 
Parece que carregavam o que se salvou do incêndio e que, em cada coisa, havia ainda a esperança de recomeçar tudo de novo.


Cá em casa nunca duvidaram das histórias que por vezes eles contavam enquanto comiam um pedaço de toucinho cozido ou uma peça de fruta.


- Que seja tudo por amor de Deus e também das almas das nossas obrigações...dizia a mãe.
Luíscoelho