sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Escola


(foto google)

Um sorriso azul brilhava naquela manhã. Era a cor dos seus olhos no dia do seu casamento. 
Suavemente nascia uma esperança que lhe enchia o peito e criava raízes de uma vida em comum partilhada com amor e respeito.
Acreditava que a formosura também era felicidade. O noivo era um galã. O cabelo preto e encaracolado emoldurava-lhe um rosto perfeito num corpo atlético. Tinha palavras fáceis e respostas prontas. Parecia ser um homem talhado para a vida.

Algum tempo depois, bem cedo, descobriu as traições. Nem a matemática consegue ser justa provando as somas ou as divisões das despesas diárias, nem das manhãs passadas na cama sem vontade de meter as mãos ao trabalho. 
Lentamente, em silêncio, aquele azul foi-se apagando. Agora é a força da mulher que sorrindo encanta, mas ao mesmo tempo esconde o sofrimento no desfazer dos seus sonhos e projectos.

A força do amor abrigava-se dentro de ti, suportando tantos enganos. As pessoas ao teu redor viam, mas deixavam que fosses tu a decidir os teus projectos, a tua vida. Ninguém te deu conselhos, nem comentaram esses comportamentos estranhos do teu marido. Ele parece já ter perdido toda a delicadeza e não vê o teu sofrimento.
Prometia-te uma vida dourada. Seria empresário individual e ganharia muito dinheiro, mas tudo isso não passava de gestos baratos que lhe permitiam viver com toda a liberdade.

Ele está "na maior". Vive "à grande". 
Um carro, uma moto, telemóveis topo de gama, passeios e muitos sonhos...não sobrou nada e agora nada funciona sem mais dinheiro.
- Podias pedir ao teu pai ou à tua mãe, disse-lhe num gesto de sem vergonha. Gastámos tudo o que tínhamos. Não sei como fazer para pagar as dívidas e o empréstimo ao banco. Estou sem clientes...A minha actividade não resultou.

- Tu andaste a enganar-me e a viver numa ilusão. Respondeu-lhe.
E continuou os seus desabafos em tom de lamento.
- Parece que todos te tramaram a vida, mas foste tu quem nos tramou. Cada dia é ainda pior. Arranja emprego. Vai trabalhar. Ainda que o salário seja pequeno será sempre uma ajuda até que venham dias melhores. Estou cheia de promessas que não passam disso mesmo. 
Em mim renascem agora sonhos desencontrados de todos os meus projectos e desejos. 
Tu deixaste de pensar e de crescer. És uma criança com necessidades mas sem obrigações.
Pára com isto e vai trabalhar. É tempo de seres homem. Chega, basta...assim não dá.

Em resposta ele abraçava-a ainda mais cantando-lhe velhas canções e tentando ganhar espaço e tempo.
- "Não sejas má para mim"... "Vá lá"...Eu amo-te muito...Só quero que sejas feliz...
Nesta situação deixou-se engravidar. Aconteceu. 
- O nosso bebé será o encanto dos avós. Será o nosso mealheiro. Será ele que nos vai ajudar a ser um casal mais forte. Pensava ele, convencido que era um grande artista.

Dias depois, ela voltou à carga com novos alertas.
- Amigo tens de trabalhar. Assim não dá. Não pode ser. Eu ganho pouco e as nossas despesas são grandes. 
Se a ti ainda te sobra dinheiro para o tabaco e os almoços, a mim falta-me para as despesas diárias e para criar um lar. "Quem não tem dinheiro não tem vícios". Começa a organizar a tua vida em vez de culpares os outros pelos teus erros.
E continuou:
- És um homem novo e saudável. O trabalho faz parte do nosso crescimento e realização pessoal. Os teus sonhos e promessas não te dignificam nem nos matam a fome.

Aquela cabeça dura não dá sinais de mudança. Para ele tudo está bem. Tudo se há-de resolver. "Dêmos tempo ao tempo"
Sem dinheiro para pagar o aluguer da casa mudaram-se para casa dos familiares. 
Agora acreditava que ele ajudasse nas lides do campo e a cuidar da horta e dos animais domésticos, mas nem isso ele foi capaz de fazer. Era duro e sujava-se muito.

Um dia, sem motivos nem razões, arranjou uma zanga e aproveitou-se disso para abandonar a mulher e o filho. 
Dias e noites sem vir a casa.
Corajosa, ela procura-o e enfrenta-o, mas as mentiras continuaram. 
Ele continua a fazer-se vítima.
Ardilosamente procura que a mulher esteja do seu lado.
Parecia mentira. Cega de amor, ela ia cedendo. É preciso amar a dobrar e desculpar sem entender...

- Vou dar-te mais uma oportunidade.

 Já sei das tuas novas amizades e também das muitas noitadas...
Ele não muda, não se emenda nem quer trabalhar.
Já não sobram espaços para continuar nesta vida de "faz de conta". Hoje venho dizer-te que já não sei porque aguentei todos estes anos. 

- Agora acabou tudo. Quero o divórcio.
Haverei de conseguir tratar do meu filho e fazer dele um homem. Ainda que passe fome lutarei para que nada lhe falte e ele nunca se envergonhe de mim, sua mãe. 
A vida continua a dar voltas. Ninguém sabe o lado melhor da vida mas todos sabemos o lado pior. O sorriso azul já não esconde o seu desencanto nem a dor da última ameaça do marido.
- Divórcio ? Só o litigioso. 
- Que pretende este fala-barato?

Um dia, a caminho da escola e vendo as outras crianças com os pais, o menino disse:
- O meu pai não me dá nada e agora nem me visita...
Todos os presentes trocaram olhares  interrogativos...
- Olha, respondeu um deles, mas nós todos gostamos muito de ti e vamos ajudar-te a ser um bom menino - trabalhador e amigo de todos as outras crianças e de todas as pessoas. 
Anda, vamos para a frente! "Vamos dar corda aos sapatos" para chegarmos à escola mais cedo e aprendermos tudo aquilo que precisamos para sermos bons – pessoas de bem.

Luíscoelho
Agosto/2014