quinta-feira, 5 de agosto de 2010

As coisas que nos contavas



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R.I.7= Regimento de Infantaria Sete
2ª Companhia - nº132 







A nossa aldeia era o nosso mundo. Aqui nasciam, cresciam, casavam e por aqui ficavam na memória dos vivos, durante alguns anos. Depois tudo morria na poeira do esquecimento.


Quando alguém ia para o hospital de Coimbra ou Leiria, ou quando os rapazes iam cumprir o Serviço Militar, toda a aldeia vivia num alvoroço. Todos falavam da mesma preocupação.

No dia 21 de Março de 1934 foram para a tropa, (serviço militar) o José Ervilha, o Luís Coelho, o José da Silva e o Joaquim Cagano.
Amigos íntimos e sempre prontos para se valerem uns aos outros nas dificuldades.


O irmão mais velho do Luis Coelho queria por tudo meter uns pedidos para ele não ir para a tropa, mas o pai impôs-se terminantemente, dizendo que queria ir e que esse era um assunto apenas seu.

O José da Silva tratava o Luís Coelho por irmão. Sempre mantiveram uma grande amizade e um profundo respeito. 

Na véspera da partida,  apanharam uma bebedeira, (piela) que os deixou completamente desorientados e alguns em delírio.
O Joaquim Cagano desconfiou do José Ervilha e jurava que o ia matar.....!

Mais uma cambalhota, em total desequilíbrio, e logo recomeçava com as ameaças.
- Foi ele que me empurrou ..... Foi ele... foi,...mas eu mato-o....filho da mãe sem vergonha...e desfiava um rosário de imprecações porcas e provocadoras.

Os outros, mais equilibrados, pediam-lhe que fosse dormir, que já era muito tarde, mas ele era de uma teimosia, que ninguém lhe conseguia dar a volta.


Quando estava já perto de casa desembaraçava-se dos companheiros e antes de cair novamente, renovava as juras anteriores...mato-o, eu mato-o...
Não me chame eu Cagano.....

O Ervilha, mais pacato, levaram-no para casa de modo a não se meterem numa luta de galos, mas com o Cagano, as coisas estavam difíceis. Temiam que fizesse alguma besteira.

Haviam já combinado juntar-se todos no adro da Igreja, depois do almoço, para se irem apresentar ao quartel a Leiria.
Já ninguém se lembrava dos acontecimentos da noite anterior, ou faziam de conta que era assunto encerrado.

Cada um levava as suas coisas, e lá foram a pé, para o Quartel.

A Aldeia ficou mais triste pela partida, mas eles foram cheios de esperança num futuro diferente daquilo a que estavam habituados.

Os anos passaram, mas as recordações desses tempos parece que as vivemos "ontem" Estão ainda frescas na nossa memória, contava o pai.


Mais uma foto do pai à direita do José da Silva. O pai era o 132 e o Silva era o 133
Luíscoelho