domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa - recordação


Foto google


Amanheceu lentamente, acordando-nos num frio suave. Era Primavera. Estávamos a chegar à festa da Páscoa. 
Nesta manhã deixaram-nos dormir mais tempo. Eram férias e era Sexta Feira Santa.
As rotinas aqui em casa eram sempre as mesmas. Apenas o Domingo seria diferente. 

Comemos um prato de sopa quente. 
- Comam meninos! Hoje é dia de jejum. Ninguém comerá mais nada até ao almoço, avisou a mãe.
Pelo aviso percebemos que não seria o dia indicado para as nossas birras de momento: - "não gosto disto".......

As palavras da mãe foram num tom de grande severidade e ainda num misto de respeito pela morte de Jesus. Era preciso fazer algum sacrifício e penitência. 
Pareceu-nos bem comer mesmo sem gostar. Estes dias de jejum eram para cumprir.
Não podíamos correr o risco de ser apanhados a procurar um naco de pão na cozinha. Se tal acontecesse, o castigo seria ainda maior que a fome.

Depois de limpar os pratos, saímos para o jardim. Este dia era dedicado a tratar das nossas flores. 
O pai, com uma enxada, já havia cavado todo o terreno, deixando os craveiros com um círculo de terra mais alta em toda a volta. Com a pá do sacho, batia nessa terra deixando-a lisa e muito certinha, parecia que lhes tinha construído um grande vaso de barro em toda a volta.


Junto à parede da casa alinhavam-se os goivos roxos e brancos. Na parte lateral eram plantados de novo os malmequeres brancos singelos.
Todos queríamos ajudar. O pai, deu-nos uma faca para limpar as canas e ensinou-nos como trabalhar sem nos magoarmos. Aproveitava aquelas canas que eram mais finas e que não serviam nem para estacas da vinha nem para o feijão verde. 


No final quando tivéssemos limpo uma quantidade razoável, ele cortava-as com um serrote de mão, de modo que todas as canas ficassem com o mesmo comprimento.
As canas eram espetadas na terras inclinando-as para a frente e outras incinando-as em sentido oposto o que dava uma cercadura muito bonita.


A alegria e a curiosidade de ver tudo bonito deixava-nos tão entusiasmados que nem se dava conta do avançar das horas.
A mãe na cozinha tinha quase o almoço pronto. Cheirava bem aquela comida feita à fogueira numa panela de ferro.

- O que é o almoço mãe...? Perguntámos quase ao mesmo tempo....
- Hoje vão comer sopa de feijão, com batatas e couves miúdas. São temperadas com azeite. 
- Depois podem comer sardinha assada. Não se esqueçam que até à noite não podem comer  mais nada. Esta foi a sua última recomendação.

Depois da sopa continuámos o trabalho do jardim. 
A mãe pegou numa foice e foi ao campo procurar junco. Era uma planta que crescia nas valas pouco fundas e com pouca água corrente.
Chamou a mana e foram por um carreiro em direcção aos campos do Liz onde havia muitas valas. 
A mãe sabia onde procurar o melhor junco.

Voltaram algum tempo depois e cada uma trazia à cabeça um molho daquela verdura. A mana estava feliz por ajudar a mãe naquela tarefa.
O trabalho no jardim estava quase pronto.
O pai pegou num pouco daquele junco e espalhou-o pelo corredor do jardim até à porta de casa. 
Agora tudo estava mais bonito. Faltava apenas colher uns ramos de louro e colocá-los nos cantos o que dava um ar de festa a toda a casa.

No domingo, tem de estar tudo pronto, limpo e enfeitado. Recordo aquele cheirinho que se perdia no ar do alecrim, louro e do junco. Toda esta azafama seria para receber a visita pascal.
Atrás da porta, o pai guardava dois ou três foguetes, que lançava logo que o senhor padre saísse de nossa casa com os seus acompanhantes.

Isto funcionava ainda como um código. Pelos foguetes calculava-se a que distância se encontrava o grupo da visita pascal. Os foguetes pelo estalido no ar  davam um ar mais solene a este acto que era aguardado com grande ansiedade.


A Sexta-feira Santa era um dia em que não se trabalhava no campo, mas que se tornava agradável pelo convívio da construção do jardim. Chegávamos até a ir ver os jardins dos vizinhos que eram geralmente iguais ao nosso.

Luíscoelho

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sementes


Fui apenas um pensamento
Andei disperso no tempo
Crescendo de forma errante
Amei de forma constante
Fui sombra fria da noite
Rasgada a talho de foice
Fui apenas um momento
Levado na força do vento
Carregando energias
Voei para lá dos dias
Sem sombra nem sofrimento
Virei a mais bela flor
Onde vive o teu amor
Presentes do pensamento
É o amor conjugado a dois
Vividos na hora e no tempo
São doces brisas depois
Revividos num momento
Com a cor de muitos Sois 


Luíscoelho
(foto google)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Noites de Novembro



Em Novembro, as noites eram frias. Ao serão, aconchegavamo-nos à fogueira. 
A mãe ia fazendo a ceia e o pai cuidava de nós, porque as nossas corridas não podiam parar. 
O jogo do"31 rou-rou cá vou eu" , era o nosso preferido. Um dos quatro, com os olhos fechados, contava até trinta e um, enquanto os restantes se escondiam onde pudessem ou a sua imaginação os levasse. Por debaixo da mesa, atrás da porta, no escuro do quarto ao lado da cozinha, por debaixo de um casaco grande pendurado....

Quando o contador, repetia tinta e um, = rou- rou cá vou eu =  já todos se tinham escondido. Às vezes estavam os três no mesmo lugar e, logo que pudessem, corriam para o lugar do contador batiam com os pés no chão e diziam:
- Um, dois, três já não é a minha vez..........( de fechar os olhos e contar até trinta e um para um novo jogo)
A cena repetia-se até cansar ou até que algum começasse na batota....não fechando os olhos, nem contando tudo até ao fim.

Um dia, o mais novo escondeu-se atrás da maceira do pão. Um tabuleiro de madeira rectangular onde a mãe todas as semanas amassava o pão. A maceira estava encostada à parede, ali mesmo à nossa frente. 
Ninguém reparou e foi uma aflição desmedida. Ninguém o encontrava. Já não havia mais onde procurar.

O pai começou a pensar o que fazer, enquanto o contador dizia:
- Vá lá.... aparece....eu conto mais outra vez....
Então, lentamente vimos a maceira a levantar-se de um lado e ele a surgir sorridente.....Ganhei, ganhei...ganhei ....

Outro serão, o pai foi buscar o peru grande. Trouxe-o para dentro da cozinha. Com uma mão abria-lhe o bico e com a outra dava-lhe aguardente com uma garrafa.
O peru não demorou a ficar tonto e caía para todo o lado completamente embriagado.

Nós já nos rebolávamos no chão de tanto riso. Parecia que também estávamos como o peru. Embriagados. 
O bicho de monco caído, andava num desassossego caindo para todo o lado. O monco já não era vermelho vivo, mas de  uma cor azulada. Quando se levantava não parava. Ora andava para a frente, ora andava para trás e caía constantemente. Foi um espectáculo inesquecível. 

Depois, parece que se acabaram os perus cá em casa. Não me recordo de outras cenas assim.
Nós ceámos e fomos dormir, mas o pai e a mãe fizeram serão a arranjar o peru para o dia seguinte.
Seria a matança do porco.

O dia começou mais cedo. Havia barulho no pátio. Ouvia muito bem várias pessoas que conversavam animadamente.
Esfreguei os olhos, mas estava escuro e o sono encarregou-se de me deixar dormitar. 

As conversas mantinham-se animadas e a minha curiosidade aumentava.
Tenho que ir espreitar....Vou ver o que se passa hoje cá em casa.
As portas estavam abertas. O cão levaram-no para a rua e os tios estavam todos ocupados a segurar o porco, ali no meio do pátio.

Era muito cedo. O Sol ainda não tinha dado sinais de vida, mas ainda assim pude ver aquele animal enorme, deitado no chão. Estava inanimado. A boca grande deixava ver os dentes recurvados para fora.

Uns seguravam-lhes as patas da frente e outros as patas trazeiras. Com uma corda amarraram-lhe o focinho para ele não morder.
O pobre bicho já tinha esperneado tudo e nem se mexia .

Com tijolos e umas tábuas fizeram uma banqueta e colocaram-no lá em cima. Logo de seguida e com muito cuidado foram queimado algumas paveias de carqueja por cima do porco para lhe queimar os pêlos.

Engraçado foi o tio José que pegou numa telha velha, telhas romanas de meio cano e começou a raspar o porco tirando-lhe a primeira camada preta de cinza e pele queimada. Nas patas, estava outro, a raspar até as deixar limpas.

Parecia que iam assar o animal.

- Deste lado está bom! Vamos virá-lo...! Disse o tio Joaquim. 
Todos "à unha" pegaram no bicho e voltaram-no para o lado oposto. Continuaram com as carquejas a queimá-lo e quando lhes pareceu que estava bom , puseram o fogo de lado e começaram a lavá-lo com água morna e raspando-o sempre com uma faca cada um.

O tio Carnide voltou-se para o pai e disse-lhe:
- Não há por aí uma aguardente para queimar a língua do porco....? 
- Eh rapazes, respondeu o pai! É para já!... Dirigiu-se à cozinha e pegou numa garrafa daquela bebida e dois ou três copitos que segurava na palma da mão.

Pararam todos e iam bebendo, como que a saborear aquela bebida. Davam grandes está-los de boca...aah ...é forte...diziam !
Ficava um cheiro no ar que nos atordoava. Depois pensei com os meus botões:
- Então era para a língua do porco ou para a língua deles...?

Continuaram sempre a raspar o coiro do porco ao mesmo tempo que outros iam deitando um fio de água com um caneco. Depois de cada passagem começava a aparecer um animal mais bonito. Branco e liso, sem aquela cinza da carqueja.
Depois de lavado colocaram-no de barriga para cima e logo o tio Coelho, irmão do pai, com uma faca bem afiada abriu-lhe parte da queixada, deixando  o maxilar inferior a descoberto.

Com dois toques da machada cortou aquele osso e disse-nos:
- Toma lá. Podes ir assá-lo....
Tive receio de tocar naquele pedaço onde sobressaíam uns dentes compridos e feios. 
- Não presta, vai dar isso ao cão, disse o pai.

Nas patas traseiras, enfiaram uma peça de madeira curva, (chambaril) que amarraram-no com cordel. 
Depois levaram-no para a adega onde o penduraram. Quando estava seguro o tio Joaquim, com a faca novamente afiada, começou a abri-lo de cima a baixo. Os intestinos rolaram-lhe das mãos para um tabuleiro de madeira, largo e comprido.

Com umas canas abriram todo o interior do porco deixando-o escancarado ao vento para que secasse as carnes. Todo este trabalho demorou até à hora do almoço.
O pai foi buscar uma bacia com água e sabão para se lavarem. Depois sentaram-se à volta da mesa e comeram e beberam sem pressas. O trabalho estava feito. Não havia corridas para outros afazeres.

O resto da tarde estiveram a rachar cepos de pinho e outra lenha que era necessária para cozer os enchidos e fazer os torresmos. Já era quase noite quando cada um foi à sua vida.

A festa maior seria na próxima noite.A ceia da matança.
Manhã cedo começavam a desmanchar o porco.
Separavam as carnes para fazer as chouriças e os torresmos.

Num canto da adega, fizeram uma braseira para irem assando algumas febras à medida que apareciam  mais fáceis de cortar. Num cesto havia broa de milho cortada em pedaços. Esta era a parte mais saborosa da matança. As febras temperadas e assadas nas brasas, eram sem dúvida mais saborosas.

Deixavam os presuntos completos e bem salgados no fundo da arca, para curarem daí a três meses. As outras peças de carne e os ossos eram distribuídos por toda a salgadeira para temperar a comida todo o ano ou ainda para o "conduto" das refeições. Toda a carne era atapetada de sal e algumas peças eram mesmo esfregadas com o sal que depois as cobria por completo.

À noite, juntavam a família toda. Irmãos, cunhados e sobrinhos.
Sentavam-se numa mesa montada para este encontro e serviam primeiro o caldo das couves cozidas com morcela e alguma carne.

Depois serviam batatas cozidas com a fritada feita em tachos de barro ao lume com pedaços de carne e fígado. Por último serviam os torresmos com broa de milho.
A festa era até altas horas da noite e sempre animada de boa pinga e muita animação.

Dizia a tia Maria, irmã da mãe:
No ano há três grandes festas - Natal, Páscoa e Ascensão, mas também existe a matança do porco que faz a sua função.
Luíscoelho,

Há Porco no Parque - Vermoim
Foto do google - Há Porco no Parque 2009

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Baloiço

  


(fotos do google)


Nunca fomos meninos de ter grandes brinquedos, mas sempre tivemos muita imaginação. Todos juntos fizemos coisas que os mais velhos ficavam de olhos arregalados. Alguns exclamavam mesmo: - Como é que eles conseguem inventar estas coisas... ? 

Havia as carretas, os arcos, os piões, as fundas, as ventoinhas feitas com as cascas dos eucaliptos e tantas coisas que nos deixavam viver e sonhar na mais perfeita liberdade. Não era fácil trabalhar um pau apenas com uma faca, um serrote de mão ou um simples podão.


Imaginávamos os brinquedos e tínhamos de lhe dar forma com as ferramentas que havia cá em casa. Devíamos redobrar de cuidados para não nos magoarmos, pois algumas ferramentas eram muito perigosas.


No final parecia-nos que os nossos piões rodopiavam mais e melhor do que aqueles que os pais dos nossos amigos lhes compravam na feira.



                                                                                        



Um dia pensámos em construir o nosso baloiço. 

Encontramos uma corda e demos início ao projecto. Nem pensámos duas vezes. 
Fomos para um barracão grande ao lado da casa. Havia lá um sótão de madeira velha e desconjuntada que servia para guardar o feno para os animais.


Subímos por uma escada e procurámos o melhor sítio para passar a corda por um dos muitos buracos existentes entre as tábuas. Depois amarrámos uma travessa de madeira na corda de modo a que a mesma aguentasse o nosso peso quando tudo estivesse pronto.


Em baixo os outros ferviam de expectativa. Todos queriam experimentar balouçando-se na corda suspensos apenas pelas mãos. Hoje lembraríamos o Tarzan na selva africana, saltando entre as árvores.
Concluímos o trabalho atando na outra ponta da corda e cerca de trinta centímetros do chão, outro pau redondo, onde nos sentávamos com a corda no meio das pernas. 

Foram momentos de loucura. A fila de espera mantinha-se sempre renovada. Os que saíam do baloiço iam para o último lugar. Quem tinha a missão de empurrar eram os que aguardavam a próxima viagem no pendular.

Dado este baloiço funcionar apenas com uma corda acontecia muitas vezes começarmos a rodopiar perdendo o equilíbrio. Tínhamos mesmo de pedir ajuda para não cair para o lado de cabeça tonta.

Um dos mais velhos pensou em pedir uma outra corda para equilibrar o baloiço. Aquilo com duas cordas seria muito melhor. Foi uma descoberta maravilhosa. Estávamos encantados... Já não andava tantas vezes à roda.

Foram dias de encanto numa algazarra muito grande, mas a grande descoberta ainda deveria acontecer que era aproveitar o balanço do corpo e das pernas para fazer andar o baloiço por mais tempo sem ter de pedir ajuda a ninguém. 


Por vezes, o pai, tirava um pouco do seu tempo para nos aperfeiçoar os brinquedos. Isso era muito  importante. Ele conseguia deixar tudo tão perfeito e seguro e acabava por nos dar as melhores lições de vida. 


- É preciso lutar sempre por alguma coisa que se deseja e todos os dias retocar as arestas para aperfeiçoar as nossas conquistas.
- Não precisamos de fazer muitas coisas, mas aquilo que fizermos que seja perfeito. Nesse tempo nem sempre compreendíamos o alcance destas frases, mas hoje reconhecemos o seu valor. 
Luíscoelho

sábado, 19 de março de 2011

Aos meus filhos


Embarcamos na vida
Imagem do Blogue da Maria - Divagar sobre tudo um pouco


Fui filho
Sou pai
Amei muito
Recebi amor
Muito carinho
Fui respeitado.
Quero dar
Retribuir
Sem reservar,
Quero sorrir
Compreender
E perdoar,
Quero viver
Abraçar
Estar presente
No vosso olhar
E na vossa liberdade
Ser partilhado
Luíscoelho

domingo, 6 de março de 2011

Doem-me as palavras

Doem-me as palavras que não disse
As que guardei apenas para mim
As que adormeci no calor do peito
Embrulhando-as num sono sem fim
Procurando que jamais alguém as visse


Doem-me as palavras que guardei
Querendo que elas nunca te ferissem
Calei-as no silêncio que há em mim
Tive medo que ferido elas saíssem
E te ferissem mais a ti do que de mim


Recordo as outras que te disse
Quando me apertavas nos teus braços
Ou adormecias no calor do meu regaço
Revivo em cada dia aqueles traços
Que formavam a energia destes laços


Amordaço as saudades na garganta
Tenho medo de soltá-las  magoadas
Prefiro tê-las frescas na lembrança
Do que soltas sejam garras afiadas
Esquecendo tanto amor e esperança.
Luíscoelho

terça-feira, 1 de março de 2011

A Barraca dos Verdeiros

Foto de Luís Coelho junto da saída norte para Leiria da A17

O Avô Carnide era um lutador. Nesse tempo viviam apenas da agricultura. Era preciso não apenas trabalhar, mas saber trabalhar. Ser orientado e engenhoso para conseguirem ultrapassar as dificuldades de cada dia. Saber aplicar os magros rendimentos valorizando-os.

A profissão do avô era a de Carpinteiro. Ainda conservo algumas das suas ferramentas que são testemunho dessa actividade. Porem fazia a sua agricultura como todas as pessoas aqui da aldeia.


Quando havia coisas que não precisavam, iam às feiras vendê-las e guardavam parte desse dinheiro. O mesmo acontecia quando vendiam uma ninhada de leitões ou um vitelo.
As feiras eram um modo de trocarem os seus produtos e ao mesmo tempo de poderem amealhar alguns escudos.

A avó Emília, tratava da casa e das refeições, alem de cuidar dos animais domésticos. 
Mulher muito activa e dinâmica. Era sempre a primeira a erguer-se da cama.
No escuro do seu quarto vestia-se e descalça caminhava para a cozinha.

Ajoelhada no chão da lareira, remexia a cinza para  encontrar o brilho das brasas escondidas. Juntava-lhe algumas carumas secas e soprava até que se acendessem. A luz da fogueira era o que mais precisava em cada manhã.

Juntava alguns paus secos e aconchegava o calor à panela de ferro.
Do outro lado da fogueira, colocava ainda o púcaro de barro ou a chocolateira cheia de água.
Não corria, mas todo o trabalho acontecia numa cadência certa.

As filhas, deitadas no quarto ao lado da cozinha, podiam ver-lhe o brilho dos olhos e ouvir-lhe a surdina das suas orações. Relembrava todos os Santos da sua devoção. 
Aumentava o coro das suas suplicas a Santo Amaro e Santo António, Santo Ildefonso, São Silvestre, São Bento e todos os santos do Reino dos Céus e da Glória de Deus.

A todos suplicava que lhe guardassem a família, os animais, a casa e que a ajudasse neste novo dia. Que os livrassem das tentações do demónio e dos espíritos malígnos.
Depois continuava os pedidos por alma dos seus - pais, avós, tios e parentes.
Eram muitos Pai Nossos e Avé Marias  e no final repetia: - para que descansassem em paz.- Amem


Havia uma oração que me ficou gravada e que ela sempre dizia no final:
Estas orações são poucochinhas e mal rezadas, que o Senhor as aceite por muitas e bem rezadas. 

Quando surgissem no horizonte os primeiros fios de luz já teria acordado os filhos. «É de manhã que se começa o dia»  Todos tinham de trabalhar.
Até que a sopa da manhã estivesse pronta cada um tinha tarefas a cumprir. Tratar das vaquinhas e alimentá-las ou rachar alguns cepos de pinheiro transformando-os em cavacas para se aquecerem à noite à lareira.

Não havia diferenças entre rapazes e raparigas. O trabalho era dividido por todos.
Muitas manhãs iam com a sachola às costas mondar as suas hortas ou a fazer novas sementeiras naqueles cantos onde a charrua e as vaquinhas não passavam.
Era preciso podar as videiras e limpá-las das raízes que nasciam para fora da terra - ladroeiras. Era necessário cavar a terra e adubá-las.

As raparigas eram tratadas como os rapazes e faziam os mesmos trabalhos. Nas encostas pedregosas das vinhas cavavam a terra lado a lado com os homens lá da terra e dos moçoilos cheios de energia. 
Na monda do milho faziam grupos e alinhados lá iam sachando as plantas e cortando as ervas daninhas. Nunca se deixavam ficar atrás dos homens mais fortes.

Nos primeiros anos de casados, os Avós, compraram alguns terrenos na Junqueira, junto à ribeira dos Conqueiros. Já lá tinham duas courelas, a que somaram mais algumas emparcelando-as num a propriedade única.

Eram terrenos pantanosos, mas era lá que cortavam a erva verde para alimentar as vaquinhas no Inverno. No fim do Verão, quando começavam as colheitas, traziam também muitos carros de espigas de milho e de feijão seco. Era uma várzea fresca e verdejante todo o ano. 

Limparam as valas para drenagem do terreno e alargaram o caminho que estava demasiado apertado pelos amieiros e os choupos que o ladeavam. 

Uns anos mais tarde compraram outros terrenos que estavam em pousio no sítio dos Verdeiros.
Desbravaram-nos e plantaram aí as suas melhores vinhas. 
Os Verdeiros ficavam logo a seguir à Junqueira, apenas uns metros mais a Norte.
Passavam ali muitos dias completos e só regressavam a casa já de noite. Era necessário construírem lá, um abrigo para eles e os seus animais. 

Nos terrenos a nascente, construíram uma casa térrea, feita com adobes. (barro amassado e apertado numa forma de madeira que depois  era seco ao sol.
A barraca estava dividida por um patamar de madeira separando os animais das pessoas. 
Era aqui que se refugiavam nos dias de chuva e frio ou ainda para descansarem e dormirem a sesta nos dias de muito calor.

Estes terrenos foram divididos em talhões  de nascente para poente, por valas para drenagem. Cinquenta metros de largura por cem de comprimento, aproximadamente.

Por morte do Avô Carnide cada um dos quatro filhos herdou dois talhões. Cada um tratava o melhor que podia e sabia da sua vinha para que fosse a mais bonita de todas.
Aqueles terrenos, onde se colheram belos cachos de uvas fazem hoje parte integrante da A 17.
Expropriaram e pagaram a dois euros o metro para construírem a autoestrada.
A Barraca dos Verdeiros desapareceu da paisagem e da história da nossa família. 
Luíscoelho

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