domingo, 9 de agosto de 2015

Perdi-me no mar


(foto google)

Perdi-me no mar
De te amar a brincar,
Sentindo a dor 
De me querer dar
Mas perdi-me no canto 
De te amar sem pensar.
Cantei à noite
E cantei de  dia
Para te ver despertar,
Até mesmo a dormir
Eu te quis sentir
Cá dentro do peito 
E só desse jeito
Poderemos voar.

Perdi-me no mar
De amar os teus beijos  
E no calor dos desejos
Segui a remar.
O amor é brilhante
Mas em cada partilha 
Nada é semelhante.
Perdido eu vivi 
E depois que te vi
Não te quis mais perder, 
Só com o teu amor eu quero viver,
Mas se ele partir para outro lugar
Prefiro morrer a ter de sofrer 
Tão longo penar.
luiscoelho
Agosto2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Vidas Simples

Resultado de imagem para fotos de avô com a burra Velhos com burros
(foto do google)


Acordou na suavidade do amanhecer. Abriu os olhos para a luz que lhe entrava pela porta entreaberta e deu graças ao seu Deus e  Criador. Mais um dia neste presente que Tu me ofereces Senhor. Mais um dia  sem que eu tenha feito alguma coisa para o merecer.
Aqui, ao meu redor, tudo canta e Te dá graças nesta manhã. Obrigado. 
São os animais que nos guardam, são as flores que olhamos, são as fontes onde bebemos e os campos onde labutamos e nos alimentamos. Obrigado. Também os ventos, o Sol ou a chuva que recebemos e até os mares e os rios onde pescamos cantam a Tua magnificência. Obrigado.

Depois, destes breves momentos, procurou as suas roupas e vestiu-se sem pressas. Tinha o dia todo. 
Vestiu, primeiro, uma camisa grossa de linho. Era aberta apenas em cima e aconchegada ao pescoço com três botões brancos.
Depois enfiou um pé nas calças e puxou-as para cima, mas logo voltou a descê-las para enfiar o outro pé na outra perneira.
Agora sim puxou-as para cima e muito acima da própria cintura.  Ao apertá-las com o cinto as calças faziam um folho a toda a largura, mas ele habituou-se assim.
Era como gostava de andar vestido. Finalmente calçou uns tamancos de madeira.

Vivia sozinho.
A sua Joaquina partiu numa tarde fria já lá vai um ror de anos. Agora sentia-se livre, mas mais triste. A viuvez vestiu-lhe os dias de cinzento.
Algumas viúvas sorriram-lhe num convite de partilha. Bastaria escolher uma delas para dividir e partilhar a sua solidão.
Não conseguiu nunca separar-se das memórias da sua falecida e agora já era tarde para tomar esta decisão.

Habituou-se a viver numa grande simplicidade. Todas as semanas uma das filhas limpava a casa e cuidava das roupas. Ele aprendeu a fazer a sua comida. 
Não podemos parar, dizia com um olhar atento. Enquanto puder vou fazendo pela vida. Não espero enriquecer, mas enquanto tiver forças continuarei a cuidar dos meus animais e da minha horta.
Duas ou três galinhas, um gato - o canito, um cão - o rafeiro que nunca o abandonava e a burra.
O canito e o rafeiro tinham carta branca e entravam em casa livremente.

Agora fazia contas à vida. Os trabalhos feitos e os que devia fazer, dando a cada um a primazia da necessidade. Nem a vinha pode esperar por uma cura de sulfato nem o milho e o feijão podem esperar por um a boa rega.
Nestes pensamentos de rotina foi construindo o seu dia de trabalho.

Cerca do meio dia voltava a casa. Habituou-se a fazer um caldinho, sopa. Nestas horas era normal ver os três dentro da cozinha. Ele, o canito e o rafeiro.
Gostava de estar ocupado. Não se sentia tão triste, nem os pensamentos o sobrecarregavam de lembranças dolorosas.
Pensar bem não pesa, mas as outras recordações avivam feridas que não queremos  nem amamos.

A primeira coisa que fazia quando entrava em casa era remexer a cinza do borralho. Juntava-lhe algumas carumas secas e soprava para reacender a fogueira.
Depois ajeitava uma panela de ferro de um lado e um púcaro de barro com água do outro lado. Acrescentava ainda alguns cavacos secos de modo a manter uma fogueia constante.
O canito soltou um miau, avisando também que estava com fome.
- Já vai...Tens de ter paciência. Tens de esperar pela tua vez.

Depois de saciado com o caldo e uma fatia de boroa foi a vez de repartir com o rafeiro e o canito. Cada um tinha a sua gamela. 
O sono veio de mansinho e ele dobrado sobre si num canto da mesa deixou-se dormir. Era a sua sesta.
Dez minutos depois já estava acordado.
- Ora vamos lá com Deus.
Era preciso continuar. Nunca se acabava o trabalho, graças a Deus. 

Foi para o pátio, soltou a russa, aparelhou-a e meteu-lhe as gingarelas, cangalhas. À noite, ela tem de trazer uma carga de couves e de feno verde para casa .  
- Oh, oh! Pode melhor do que eu! Então!?
Eram assim os seus dias, todos os dias do mês e do ano.
- Que Deus me ajude e guarde. Eu também não faço mal a ninguém! Dizia.
Passava os seus dias na companhia do rafeiro e metido apenas com estas preocupações.
Por vezes encontrava os seus vizinhos e então perdia-se na conversa com eles. Os temas eram sempre sobre o tempo ou as moléstias que dizimavam as vinhas ou as suas culturas.
O mundo ficava muito longe dos seus pensamentos. As notícias e as políticas não lhes diziam respeito.
Neste tempo, as notícias corriam lentamente e de tal modo lento que cada pessoa pensava que isso era um mundo diferente e distante onde eles nunca poderiam chegar...
luíscoelho
Julho,2015,20

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Um poema ao anoitecer


(foto do blogue - Flor de Jasmim )

Um poema ao anoitecer
Faz-se de pequenas carícias,
Gestos que se soltam do olhar.
De palavras simples e míticas
E dos sonhos acorrentados,
Como campos por nós semeados
Pelo sabor das conquistas.

Um poema ao anoitecer
Faz-se na ponta dos dedos,
Desenhando os nossos segredos,
Desejos, sonhos sem medos
E tudo quanto nos faz viver
Nesta vida onde o querer
Será maior que o nosso ser

Um poema de anoitecer
Faz-se de estrelas cintilantes
De amores e de amantes.
São anoiteceres vibrantes
Até os beijos são presentes
Que todos vamos tecer.
Luíscoelho
Julho/2015/10

sábado, 27 de junho de 2015

A cor do desejo



Amanheceu nos lábios prenhes de calor,
Semeados de silêncios, clareando o dia.
Misturaram-se as cores com muita magia,
E transbordaram duas mãos de muito amor.
Ambos desejavam e também lhes competia
Esta dança fascinante e de bela ousadia.

Beberam sons em gestos de acordar
Teceram quadros cheios numa só cor
Dobraram os cantos sem ângulos de dor
E amaram num querer sem se cuidar
Porque a vida se fazia assim neste alvor
E nada mais se pode ter sem este amor.

Coseram num só ponto a força do seu querer 
Selaram o acordo de duas vidas num só viver
E amaram-se ainda mais neste amanhecer.
Luiscoelho
Junho/2015

sábado, 20 de junho de 2015

A Desrisca

livros
(foto google)


A quaresma era um tempo de penitência.
Em todas as aldeias a vida corria à sombra da Igreja que por seu lado controlava tudo e todos.
Nas leis da Igreja Católica existem mandamentos que os católicos devem observar.
Um deles diz: 
Todo o bom cristão deve santificar os Domingos e dias Santos de Guarda.
Devem também, nesses dias, assistir à missa completa.
Outro dos mandamentos diz que devem confessar-se e comungar uma vez por ano, na Páscoa da Ressurreição.


Para controlar estes preceitos havia a Desrisca.
Um livro grande onde constavam  os nomes de todas as famílias da Freguesia, divididos por lugares de residência.
Depois das cerimónias, missa e ofícios na Igreja, todos se dirigiam à Casa Paroquial para o senhor padre os desriscar no livro grande.
Conforme ia chamando ia desriscando no livro e assim ficava cumprido aquele preceito.


Certo dia, o Sr Abade chamou uma paroquiana que não tinha "papas na língua".
O seu nome era apenas Maria de Jesus, mas como haviam muitas só com este nome, e para as identificar a todas juntavam-lhe o apelido do marido ou do lugar de residência.
Esta Senhora era conhecida por Maria de Jesus Grilo. Talvez o Marido fosse alguém com dotes de boa qualidade.
Quando o Sr Abade chamou - Maria de Jesus Grilo!
Logo aquela respondeu:
- Corte lá o Grilo Sr Abade. Corte lá o grilo. O Sr não precisa dele e a mim, pobre viúva, não me faz falta.
Os presentes tiveram dificuldade em conter o riso. Havia medo e respeito.
O Abade rectificou e riscou o nome da paroquiana.


A mãe contava que iam muito cedo para a Igreja para cumprirem estes preceitos. Formavam grupos e levavam tochas acesas para se guiarem pelos caminhos e carreiros que os separavam da Igreja. Era longe.
A celebração da Missa era sempre antes do Sol nascer.
Durante a caminhada entoavam cânticos ou rezavam as ladaínhas.


Ao chegarem à Igreja apagavam as suas tochas num canto da parede que estava sempre preto dos tições. Era um costume antigo.
Um dia, o Padre aborrecido por esta tradição, chamou a atenção das pessoas que ali continuavam a apagar as tochas apertando-as contra a parede.
- Apaguem as tochas na rua e no chão. Esta parede está uma vergonha, toda suja.
Mas logo alguns lhe responderam
- Sempre foi assim e assim continuará a ser.
O mais atrevido ainda disse mais:
- O meu avô esmurrou aqui, o meu pai também e eu também irei esmurrar aqui como sempre fiz quer o Sr queira ou não queira! Ora essa!...


 Ouvi contar ainda que o antigo prior era cego.Teve a doença da lepra. A empregada guiava-o para o confessionário onde ele ouvia a confissão e perdoava os pecados em nome de Deus.
Era um homem cheio de bondade, além de ser cego.
Os mais novos diziam:
- Eu quero confessar-me ao padre Jacinto.
Ele não vê e eu posso dizer-lhe todos os meus pecados.

O outro padre era mais novo e muito finório. As raparigas e os rapazes diziam que não lhe podiam contar tudo.
- É padre é padre, mas é um homem como os demais...diziam   os mais velhos.
luiscoelho
Junho/2015

domingo, 14 de junho de 2015

Esta noite

Foto

Esta Noite
Sonhava dar-te um abraço.
Deixar-te muito apertado
Sensivelmente acordado 
E muito, muito mais acarinhado.
Mas, acordei alvoroçado,
O meu sonho foi trocado.
Nem te vi, nem te toquei
E  fiquei todo lixado.
Eu estava todo nu,
Já te tratava por tu,
Sem isto ter aceitado.
Que sonho desajustado 
Levantei-me atarantado
Procurei as minhas roupas
Para sair deste fado.
Junho/2015
Luiscoelho

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Peregrinação

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(foto google)

Era muito cedo quando acordaram os filhos. 
Os pais, já se tinham levantado há bastante tempo. Antes de saírem de casa deveriam deixar os animais tratados e acomodados. Só voltariam na tarde do dia seguinte.
Ele deu a volta pelos currais reforçando a ração. 

A mulher, em casa, ia arrumando a merenda num cesto, condensa. O farnel foi preparado na véspera.

Conferiu tudo à medida que ia arrumando dentro da condensa. O mais importante era mesmo a comida. Iriam comer com as mãos, sem facas, pratos ou garfos. 
Chegada a hora da bucha, procuravam uma sombra. Depois sentavam-se no chão ao redor da merenda e seguravam nas mãos um pedaço de pão com o conduto ou, numa mão a carne e na outra o pão.
Não havia fruta, mas nunca faltava água e um pouco de vinho.

Desta vez arranjaram o galo grande de casta. Era um grande galo de pescoço pelado. A cauda de penas castanhas e azuis dava-lhe ares de imperador. Era muito bonito.

Não deixava que alguém se aproximasse das suas galinhas. Ele era o maior. Bicava o cão, os gatos e até as pessoas. A dona, que o conhecia muito bem, quando lhes ia dar um pouco de milho ou de verdura tinha de levar um pau.
- Tu tem juizo! Não tentes morder-me! Olha o pau! Um destes dias acabo contigo! Dizia-lhe com um ar ameaçador.
Naquele dia cumpriu a ameaça.
Quando, de madrugada, lhe dava o milho,  o galo fez carreira para ela, mas nesse momento ela mandou-lhe uma tal cacetada que o deixou KO.

- Tu não estavas destinado para o nosso farnel, mas já está, já está! Acabaram-se com as tuas bicadas. Grande estafermo!

Depois de arranjado e cortado em pequenos pedaços meteu tudo num tacho de barro e deixou-o refogar.
Ficou triste por ter matado o galo grande, mas ao mesmo tempo ficou contente pois era um bom farnel para os quatro. Deixou em casa as patas, a cabeça e outras miudezas para no dia seguinte. Depois, quando chegassem a casa, iria fazer um arroz malandro naquele molho do guisado.
  
Temos de nos despachar meninos. É longe e depois o calor começa a apertar!
São cerca de 30 quilómetros de distância de casa até ao Santuário.  Era a primeira vez que levavam os filhos. A menina devia ter onze anos e o irmão ainda não tinha feito os nove de idade.
Foi no ano de 1957, em Julho.
A mana prometeu:
- Minha Nossa Senhora, se o mano passar no exame da terceira classe vamos a Fátima rezar e agradecer.

Depois disse aos pais da sua promessa.
Ficaram muito admirados pelo carinho com o irmão, mas também lhe disseram que não deveria prometer pelos outros e que deveria consultar primeiro os pais.
Quando fores grande decidirás por ti, mas agora ainda és muito nova.

Marcaram a data para um dia de peregrinação. Assim iriam em grupo com outras pessoas.
- Estão prontos? Disse o pai. Então vamos embora. 
No céu havia muitas estrelas e a manhã senti-se fria.
A Mãe carregou o cesto da merenda à cabeça e o pai levava dois cobertores enrolados e presos ás costas como se fosse uma mochila.
Ora então vamos lá com Deus, disse a mãe que se benzeu e começou uma oração. 
Em fila e sem saber das distâncias a percorrer os meninos seguiam satisfeitos, até pensavam que iam para uma festa.

Caminharam por muito tempo até chegarem à cidade de Leiria. O Sol ia muito alto e dava sinais de um dia quente. 
No sopé da encosta da Senhora da Encarnação, mesmo junto às ruínas da antiga praça de touros, sentaram-se à sombra de uma oliveira. Descansaram as pernas e comeram alguma coisa. A mãe dizia:
- Temos de aliviar o cesto. Isto pesa. Agora já vai mais leve. 

- Vamos embora que a viajem é grande. Disse o pai.

Caminhavam acompanhando outros peregrinos que faziam aquele percurso. Alguns quilómetros mais adiante começaram as ladeiras da encosta da Serra. As pernas cansadas doíam. 

- Ainda falta muito? Perguntou o rapazito...

- Estamos a chegar ao Soutocico. Deve ser metade do percurso, respondeu-lhe o pai.
- As minhas pernas doem tanto, reclamava o miúdo.
As subidas eram cada vez mais duras, o cansaço tomava-lhe as forças.
- Pois, mas temos de continuar. Agora não temos escolha.

Seguia no grupo uma família conhecida que levava um burro carregado e uma menina montada. 

O pai na sua imaginação, disse-lhe:
- Agarra-te à albarda do burro. Ele puxa-te!
Entre queixas e muitas lamurias lá foram subindo a serra e descobrindo nomes de localidades diferentes. Curvachia, Arrabal, Freichial, Lagoa, Chainça, Santa Catarina da Serra.
Já perto do Santuário a mãe disse-lhes:
- Já se vê a torre da Basílica. Estamos perto.
Os olhos dos garotos abriram-se ainda mais de tanto cansaço. 

Chegaram ao Santuário bem depois da meia tarde.

Era uma praça enorme, encimada com uma igreja muito grande e diferente de todas as que conheciam. 
No centro havia a Capelinha das Aparições. Era uma construção pobre. Um simples telheiro onde se amontoavam muitas muletas e também coisas de cera que os peregrinos ali iam deixando. Foram estas imagens que sempre guardou. Os peregrinos ali à volta iam rezando e cantando e outras vezes estavam apenas em silêncio.

Procuraram um canto na escadaria da Basílica, de modo a protegerem-se do frio do norte durante a noite e também de onde podiam ver todas as cerimónias.

Estenderam os cobertores e os meninos deitaram-se.
O som dos cânticos e do órgão não eram maiores que o sono que os adormeceu. 
O pior foi quando uns senhores que traziam umas correias por cima dos casacos os mandaram sair dali.
- Não podem pernoitar aqui. Têm de sair já. Vai começar a procissão das velas e ninguém pode estar nas escadarias da Basílica.

O pai pegou na trouxa e a mãe no farnel. Não sei onde passaram a noite, mas sei que a cama foi no chão e o agasalho foram os cobertores.

Acordaram com o som dos sinos e dos cânticos. Estava frio. Aquela gente movimentava-se para todo o lado. 
Começaram as cerimónias e depois da missa realizaram a procissão do adeus. Todos agitavam no ar os lenços brancos e de outras cores. 
Viam-se lágrimas nos olhos de muitas pessoas.
- Oh Fátima adeus, Virgem Mãe adeus.

O regresso foi de autocarro.

Tão cedo não farão promessas. 
Luiscoelho
2015/Junho