terça-feira, 11 de maio de 2010

Retalhos da vida

Posted by Picasa

Hoje tenho vontade de falar de ti. Não sei bem o que escrever nem como fazê-lo. 
As coisas que nos contavas, dava um livro muito grande. Um romance. Um grito de coragem. 

Aos poucos revejo os quase sessenta anos de convívio de encontros e desencontros.
Relembro os teus conselhos, os teus pontos de vista. A tua experiência de saber estar e saber viver.
Relembro a tua capacidade de ouvir e aconselhar o caminho melhor.

Não terei lágrimas suficientes para chorar a tua partida. Quero apenas recordar sempre a tua serenidade quando nos olhavas com o azul doce e profundo dos teus olhos.

Nem sempre estivemos de acordo e sabias que eu não tinha razão, mas deixavas que eu fizesse como queria e desse asneira. Depois mostravas-me como eu estava errado e ajudavas a reconstruir  tudo de novo.

Quantas noites te tirei o sono porque ficavas acordado a pensar como resolver os meus problemas. Às vezes, quando acordava, já tinhas iniciado algumas tarefas que eu devia fazer e sorrias dizendo:
- Agora tu vais ajudar-me. Tenho ali uma coisa que também não consigo fazer sozinho.
Bonitos estes dias em que brincávamos construindo o meu futuro.

Recordo algumas frases:
«nunca peças a quem pediu e não sirvas a quem serviu»

É um ditado popular que transformava a tua vida. Eras incapaz de ir ali ao lado pedir uma ferramenta emprestada, um punhado de sementes ou outra coisa que fosse necessária nessa altura.
Procuravas sempre ver todas as outras soluções. Acabavas resolvendo tudo sem pedir nada aos outros.

Muitas vezes as pessoas emprestavam, mas ficavam com medo que não devolvessem ou que as danificassem. 
Sempre nos ensinaste a resolver os nossos problemas e a não ter medo de enfrentar as situações adversas.

Quando casaram em 1943 não tinham tudo aqui em casa e o forno para cozer o pão fazia-lhes muita falta e numa noite enquanto ceavam a mãe disse-lhe:

- Luís, amanhã vais comigo a casa da minha mãe para cozermos o pão.
- Está bem, mas será a última vez. Na próxima semana, já teremos aqui tudo pronto para fazeres o pão cá em casa. O forno vai ser concluído ainda hoje ou o mais tardar amanhã.

Levantaram-se cedo e lá foram eles até ao outro lado da povoação. Um levava a lenha e a água e outro a farinha e os restantes ingredientes. Enquanto a mãe amassava o pão o pai acendeu a fogueira no forno e foi vendo se aquecia até a massa levedar.

Ajudava ainda a colocar as bolas de pão no forno e depois regressava  a casa. 
A mãe ajudava a avó enquanto o pão cozia no forno.

Nessa tarde, foi procurar o pedreiro e combinar o dia em que o mesmo poderia vir concluir o o nosso forno. 
Só faltava mesmo a fornalha.

A mãe dizia que eras teimoso, mas  essa  teimosia era positiva e era o teu próprio selo. Enfrentar as situações e resolvê-las com dinamismo e simplicidade.

Recordo também a tua calma frente ás adversidades. Não era fácil aborrecer-te.
Sabias desculpar como ninguém e ainda ajudar a que as outras pessoas compreendessem as falhas humanas.

Lembro daquela vez que andávamos todos na vinha e a mãe foi, levar-nos o almoço. Aquilo era um piquenique ali sentados na terra à sombra das videiras mais altas.

A mãe pousou o cesto no chão. Estendeu uma toalha e chamou-nos para almoçar. Foi dispondo as coisas em cima da toalha e só então viu que se tinha esquecido dos pratos. Quando reparou na sua falta começou com lamentações. 
- Mas que esquecimento o meu ....e agora  como é que posso dar-vos o almoço...?

Lembro de lhe dizeres:

 - Deixa lá isso, nós temos cá a comida, vamos inventar uma maneira de nos safarmos como pudermos. O mais importante trouxeste. Não te estejas a mortificar !
Duas pessoas podem comer na tampa da panela da sopa. Leva pouco, mas vão acrescentando como quiserem

Outros dois podem comer no tacho da carne. Retira-se a carne para outra coisa.
Quem não gosta da sopa pode começar a comer o "conduto" e parece-me que já estamos mais ou menos entendidos.

Vamos lá pessoal que a seguir querem dormir a sesta e o calor vai apertando.

No final todos acharam graça e a mãe acabou sorrindo com a brincadeira.

Outro dia continuarei com mais histórias que fazem os retalhos da vida.
Luiscoelho