domingo, 6 de junho de 2010

Avó Materna - Emília Rodrigues


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Nasceu em mil oitocentos e setenta e quatro, no dia 18 de Junho, no lugar dos Conqueiros.

Famílias carentes, mas muito trabalhadoras e respeitadas.

Mourejavam nos campos do nascer ao pôr do Sol, arrancando da terra o seu próprio sustento e dos animais que iam criando para sua alimentação. Porcos ,cabras e galinhas e ainda os bois.

Moça cheia de vida e de orientação para se bastar sem ter de mendigar nada a ninguém.

Cedo foi servir para casa dos Senhores - Alves de Matos - dos Conqueiros. 
Família de Bispos, Arcebispos e abadessas. A mais importante de toda esta região.

Aprendeu regras de trabalho e horários que tinham de ser cumpridos, chovesse ou fizesse Sol, estando doente ou com saúde.

Não soube o que era ler nem escrever. Aprendeu a cozinhar e a remendar as suas roupas.
Aprendeu a amar o seu próximo com respeito e muita delicadeza.
Aprendeu a amar a Deus com toda a sua alma e bastante fervor.

Casou nova e em nada alterou os hábitos de trabalho. Criou quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas ensinando-lhes os seus princípios e orientações e obrigando-os ao cumprimento rigoroso dos mandamentos da Lei de Deus e também os mandamentos da Santa Igreja Católica .

Deu-lhes o pão mas soube dar-lhes a educação.
Nenhum filho a deixou envergonhada ou teve a ousadia de discordar da sua orientação.

Logo que pudessem fazer algumas tarefas não os poupava e exigia mesmo que as fizessem bem feitas e com prontidão.

Quando voltavam da escola tinham de juntar lenha para à noite acender a fogueira e cozinhar os alimentos. Deviam também guardar os irmãos mais novos e ir à fonte buscar água para casa.

Casou nova com José Francisco Carnide, carpinteiro de profissão e elemento activo da banda filarmónica cá da nossa terra. Pessoa muito respeitada.

Com o apoio do marido e também sob a sua orientação construíram uma grande casa agrícola, comprando terrenos e valorizando-os.

No dia do casamento, depois da cerimónia na Igreja, era tradição a noiva ficar em casa dos seus pais, e  o noivo ia também para a casa dos seus. 
A boda era separada. Cada um em sua casa e com os seus convidados.

No final da boda, depois da meia noite, o noivo ia com os padrinhos e os convidados, buscar a noiva. Nesta altura, juntavam-se à festa com todos os convidados.

Como a noiva ficou sozinha e a boda ainda estava atrasada, trocou de roupa, pegou numa foice e foi cegar erva para os bois, nuns terrenos um pouco afastados da residência.

Todas as pessoas ficaram admiradas pela sua força e determinação de valorizar o tempo.
Ralharam com ela, mas de nada valeu.
- Hoje, dia do teu casamento, não devias ter feito isto!

- É preciso trabalhar e pronto! O tempo não é de malandragem....! Respondeu a avó com prontidão.

Ficou viúva aos setenta anos. Já tinha casado todos os filhos.
Não se resignou andar de porta em porta, em casa dos seus filhos. Enquanto pôde trabalhou  e manteve-se ocupada.

Lembro-me de a ver aqui por casa, sempre vestida de preto. Até os brincos na orelhas mandou forrar de preto em memória do seu falecido.

Nesta altura, já a avó mal podia andar, e por isso, apoiava-se num pau de marmeleiro muito lustroso.O corpo estava sempre inclinado para a frente e para baixo.

Quando a chamávamos, ela apoiava-se mais naquele pau e torcia a cabeça para nos ver.
- Quem és tu "piqueno"...

Um dia os pais lembraram-se de ir a um passeio. A mãe contou à avó que iriam a Lisboa e a outras cidades.
Desta vez a mãe ia levando umas pauladas o rabo. A avó ficou perdida e furiosa.

- Não tens vergonha de ir passear e com tanto trabalho para fazeres cá em casa...?
Seu estafermo ....!  Mais velha sou eu e nunca lá fui....!  Estás a ouvir...? 

Lembro de ver a mãe dobrada para a maceira onde amassava o pão e atrás dela a avó, com um ar muito zangado e levantando mais a voz do que era costume.

Enquanto barafustava, ia batendo com a ponta daquele pau, no soalho de casa provocando um som de meter medo.

A mãe pensava:
-Agora é que ela me vai bater. Paciência....! Já tenho quarenta anos e ela nunca me bateu. Mas... desta vez ....

Resignada por não conseguir demover a filha deste passeio. lá se foi embora para a sua casa que ficava no extremo da povoação.

Algumas tardes passava-as junto com os compadres Silvas e a Maria que era muito beata e passava os dias e as noites a rezar.

Era ceguinha mas conhecia todos os que conviviam com ela. Não tinha mais família e foram estes os sobrinhos que a acolheram até que Deus a chamou para a outra banda. 


Os gatos eram a sua grande paixão.
Se lhe deixassem até de noite queria dormir com eles.

- Agora vamos rezar o terço, Senhora Emília....?

Reze lá a Senhora, que eu não tenho vagar....! Respondia-lhe logo a avó farta de tanto rezar....!

Recordo a sua casa.Uma habitação rústica, com um alpendre que dava acesso a uma sala ampla e aos três quartos. Ao fundo da sala havia um relógio alto com umas pinturas muito esquisitas e aquele pêndulo sempre a brilhar naquele amarelo que parecia ouro. 

Do lado direito do relógio ficava uma mesa com um crucifixo e um vaso com flores secas. Do outro lado da parede havia um arquibanco com o encosto todo trabalhado de enfeites simples de encaixar. Hoje corresponderia ao sofá de quatro lugares.

Havia uma segunda entrada que dava acesso ao pátio interior e à cozinha sempre muito escura.
Hoje não resta nada daquela casa e toda a família se dispersou, formando outros agregados famíliares.

Luíscoelho