domingo, 6 de setembro de 2009

O Sr Zé da Silva

Perdidos na memória do tempo, mas ainda consigo recordar alguns traços da sua fisionomia assim como das suas conversas aqui em casa.
Andavam à jorna. Iam trabalhar para quem lhes falasse primeiro, ou combinasse primeiro os dias que precisava deste trabalhador.
Vinham também aqui para casa.
Chegavam de manhã, às 09 horas, de enxada às costas e com vontade de «fazer o dia». Alguns dias vinha com a mulher e aqui passavam o tempo ajudando os meus pais nas lides do campo e na cultura da vinha.
Os filhos ficavam por casa entregues a si próprios e outras vezes vinham com os pais a troco de uma sopa e um pedaço de pão.
Eram pessoas pobres e morreram pobres.
A casa onde viviam só tinha telha em metade. A outra parte era descoberta não oferecendo abrigo nem segurança.
Um dia lembro o pai dizer-lhe:
-Dou-te um pinheiro para arranjares a tua casa e para poderem viver melhor nos dias de Inverno. Assim não estás bem nem os teus filhos......Pensa nisso.
O sr Silva nunca mais se preocupou e lá foram vivendo como puderam.
Os filhos cresceram e foram «Servir»
Saíram de casa e foram trabalhar para casais mais abastados que os alimentavam e lhes davam o ordenado no final do mês.
Quando veio a revolução de Abril de 1974, e com os filhos já todos casados a sua vida melhorou um pouco mas seguiram-se as doenças e lá partiram no esquecimento normal do tempo.
A mulher era muito descarada e dizia muitos palavrões e então a minha mãe estava sempre a repreendê-la para não falar assim na frente da crianças.
Um Domingo à tarde vinha com os filhos todos atrás de si e um cesto carregado com um tacho e não sei o que mais. Era arroz de míscaros.
Acomodaram-se na nossa eira e começaram a comer enquanto a minha mãe lhe foi buscar um pipito (bilha de madeira) de vinho de dois litros.
Nós estávamos a olhar e quiseram repartir connosco aquele arroz .
Coitadinhos dos meninos deixa-os comer um bocadinho...., dizia a senhora.
Provámos aquele arroz maravilhoso salteado com os cogumelos - míscaros - e pedacinhos de toucinho entremeado.
Era maravilhoso e parece que nunca mais provei arroz igual àquele.
Outro dia andavam a semear batatas e enquanto os bois lavravam um novo rego o sr Silva pegou numas poucas de alfaces para plantar mas a mãe disse-lhe :
- Sr José, páre lá com isso e vá fazer outra coisa. Isso faço eu !
- Mas não vê Ti Virgínia que não posso fazer nada sem que as vacas dêem a volta...? Se estiver parado é pior para si e para mim também.
Nos ajudámo-los a eles e eles ajudaram-nos a nós.
Ainda hoje somos amigos dos filhos do Sr Silva e eles são nossos amigos também.
O José, o Manuel, a Clarinda, a Emília e o Idalino.
Penso que dois já faleceram.
A Mulher do sr José da Silva chamava-se Emilia, mas todas as pessoas a conheciam por Recta. Ela não gostava nada deste apelido e quando alguem se atrevia a dizê-lo, sujeitava-se a ouvir muitas coisas desagradáveis. Ela tinha uma lingua bem afiada e resposta sempre pronta
luiscoelho