terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Vidas






A Ti Carminda, completou 89 anos em Dezembro último. Tem lucidez bastante e recorda-se da sua vida passada, lutando dia e noite, para melhorar as condições de vida, da casa e da família.
Mulher destemida e determinada, para vencer todas as situações.
Aos poucos, vai recordando e recontando as suas histórias. 
Por vezes, apetece-me dizer-lhe:
- Já me contou isso centenas de vezes...! Será que ainda vai falar outra vez no assunto...?
Para ela, será sempre a primeira vez, e dá-lhe gosto, contar aqueles casos passados, e que de algum modo a marcaram.
Frente ao meu silêncio, ela abre lentamente aquele livro, que é só seu.
Não sabe ler, nem escrever, mas estes factos, e acontecimentos, foram escritos com o seu suor e sofrimento e ainda a capacidade de ver mais alem.
Um livro, que também se vai apagando lentamente.
Um dia, será a sua última história. Um dia, aquele olhar que nos mede, e nos interroga, até ao fundo da nossa alma, deixará de fazer perguntas. Nesse dia talvez pergunte:
Esqueci-me de escrever, aquela conversa das tias e das primas, quando se abeiravam da Carminda para se certificarem dos seus conhecimentos e refolhearem as suas recordações. 
Porque me esqueci de escrever...? Porque não quis perguntar...?
No seu livro, estão registadas as orações que se devem fazer para proteger a casa e a família, outras para as desgraças ou as pragas, e ainda as dos maus olhados, invejas ou espíritos malignos.
Sabe de cor, aquelas orações que se fazem pelo Natal, Páscoa ou ainda na Quaresma e ainda como as pessoas se devem comportar socialmente, respeitando-se ou ajudando-se nas horas mais complicadas ou mais felizes.
Para ela, tudo aconteceu num dia muito recente e ainda hoje não sabe onde encontrou forças para vencer situações de extrema dureza.

Alguns casos

Ontem, domingo, estávamos na Igreja assistindo à Missa. Entrou um senhor, conhecido de  todos, mas que estava doente. Tinha morrido um grande amigo seu, inesperadamente, e isso perturbou-o.
Começou a falar alto lá dentro da Igreja.
Uns riam dele, e outros olhavam com desinteresse. 
A senhora Carminda, esperou em vão, que algum dos homens presentes o ajudasse e o levasse até à rua para que se acalmasse. Como ninguém o fez, foi ela que se levantou e o  chamou. Levou-o para junto de si e recomendou-lhe:
Estamos na Igreja e vamos rezar. Essas conversas, são para a rua, para serem faladas lá fora.
O senhor ajoelhou-se no chão e ali esteve todo o tempo até ao final da cerimónia, sem abrir mais "piu", nem incomodando nenhum dos presentes.
No final todos louvaram o gesto da Ti Carminda.
Conta ainda, que durante um ano, não voltou a entrar na Igreja. Sentava-se na rua, ao sol ou à chuva, e rezava sozinho e em silêncio o terço.

II

Uma outra vez, os homens lá da aldeia, voltaram-se uns contra os outros e andavam numa contenda sem fim à vista.  Na contenda, estava também, o pai e o marido da senhora Carminda.
Prevendo maus resultados, ela, meteu-se ao meio, para os afastar. Foi quando começaram a chover as primeiras bofetadas. Como ela estava no meio foi ela que as apanhou. Não eram para ela, mas quem as deu até ficou convencido que tinha batido no adversário.
A luta terminou e cada um foi para sua casa.
A Ti Carminda guardou estas recordações que ainda hoje nos conta com muita alegria, convencida que foi ela que ajudou a serenar os animos.

III

Certo dia, um cunhado, levado de ciumes jurou que havia de matar o marido da Carminda. O Caciano.
Bem lhe mostraram, que ele não tinha razão, e que o Caciano nem lhe devia, nem lhe queria mal.
-Hei-de matá-lo e pôr-lhe os fígados ao sol...........Hum...Há-de saber quem sou eu........
- Homem, não faça isso! Ele não lhe fez mal a si e "vocemecê" estraga a sua vida, e vai para a cadeia.....diziam-lhe todos.
_ Hum.... porque assim...e por mais aquilo....eu.... mato-o.......continuava, e dito isto, mete a mão ao bolso e tira uma navalha.....
A Ti Carminda, estava por perto e como viu o que o cunhado ia fazer, pegou numa cavaca de carvalho e desancou-o sem dó nem piedade.
O tio António Pirícas, largou a navalha no chão e começou a gritar:
-  Ela bateu-me...ela bateu-me....! Vou-me queixar à polícia......! Vamos para a Justiça...
Dizia-lhe a Ti Carminda:
-  Vai...vai...Ainda vais dizer aquilo que tu és...!
Veio a Polícia de Sernancelhe e começa um inquérito.
- Então D. Carminda bateu neste senhor....?
- Bati sim senhor.
- E porque lhe bateu.....?
- Estava na minha frente e dizia que ia matar o meu marido....
- Senhor António Piricas, você não tem vergonha de levar tareia de uma mulher, e ainda ir queixar-se à polícia...?
- Você não tem juízo, nem vergonha. Veja lá a desgraça que ia fazer....!
Passado algum tempo voltaram a ser amigos e lá se desculparam por estes desaguisados.

IV

Uma outra vez, as Primas do Caciano,  andavam furiosas com senhora Carminda. Não conseguiam dar-lhe a volta e por tudo queriam que o Caciano semeasse primeiro as suas terras. Porque lhe pagavam e porque devia ser assim, mas a Carminda, já tinha combinado com o marido:
 - Primeiro, semeamos nós e depois, irás semear para elas se quiseres. Não te esqueças, que primeiro estão os teus filhos para comer, e quem manda cá em casa és tu e eu, e nunca elas......!
Como não conseguiram os seus intentos, a mais nova das primas, pegou numa pistola e foi ameaçar a Carminda.
- Dou-te um tiro e vou-te matar....! Não hás-de levar sempre as tuas razões avante.
- Nesta altura a Carminda, estava nas suas lides,  dentro de sua casa enquanto a outra barafustava na rua, fazendo grande alarido.
- Apontava a pistola e repetia:
- Vou-te matar....Vou...Vou...!
Responde a Ti Carminda:
- Dá lá o tiro depressa....vê se acertas no buraco do cu..... Já está aberto e não precisas de fazer mais estragos....! 
E continuou a fazer a sua vida descansadamente como se nada estivesse para acontecer.
A prima, ficou ainda mais furiosa, mas deu-se por vencida e lá se foi embora.

V

Uma outra vez, foram para o tribunal fazer a partilha dos terrenos da quinta.
Quando chegou a vez de todos assinarem a Ti Carminda perguntou ao Sr Dr juiz:
- É justo assinar uma partilha de menores..............??
- Os primos usaram de má fé e queriam todos os terrenos só para eles.
- Cala-te e não digas nada..... Replicavam eles na presença do Juiz.
O Doutor, ouviu e já  não fez aquela escritura, mas ainda assim, eles teimaram em considerar seus todos os terrenos, madeiras e nascentes de água, não deixando nada aos outros herdeiros.
Morreram já, e nada levaram alem da pobreza em que se afundaram com a ganância do dinheiro e uma avareza desmedida sem respeito pelos outros. 

Vl




Quando lhe nasceu o filho José,  a vida e as condições da Ti Carminda tinham melhorado pouco.
As pessoas, naquele tempo, pensavam em comprar terras e pouco se importavam com as condições das suas casas.
Lá se ajeitavam, como podiam, e havia sempre uma panela de sopa fresca todos os dias.
Era o seu sexto filho.
Um dia quando lhe dava o peito para ele mamar sentiu uma dor muito grande e a seguir o bebé "engasgou-se".
Olhou primeiro para o menino e deixou que vomitasse o seu mamilo.
Já não tinha leite e o bebé puxou até lhe decepar o mamilo.
Estancou o sangue, e fez um tratamento com ervas,  que lhe aconselharam.
A sua preocupação agora, era como iria criar aquele bebé. O menino ainda não tinha um ano.
Estava muito aflita e lamentava-se :


- Que vai ser da minha vida .... Perguntava sozinha , sem esperar que alguém lhe respondesse. 
Comprou uma cabra, e começou a dar ao bebé aquele leite fervido. Por vezes, iam para o campo logo de manhã e não podia ferver o leite da cabra. Outros dias passavam por lá o tempo todo e não podia cuidar do seu menino como devia fazer.


Já sei, disse ela. Chamou a malhadinha (era o nome da cabra). Segurou o filho com um braço e com a outra mão deu-lhe a mama directamente da cabra.
A partir desse dia a cabrita e o menino eram inseparáveis.
Logo que ouvisse o primeiro choro do bebé a cabrita vinha dar-lhe mama, alargando as patas trazeiras por cima da cabeça do bebé  de modo a que ele pudesse mamar.
De recompensa a senhora Carminda dava-lhe um naco de pão ou uns bagos de milho.
Todos se admiravam com estes pequenos milagres, e com a capacidade de contornar os problemas. Ainda teve mais dois filhos que criou apenas com um peito.
Na sua última filha é da idade do neto mais velho a quem também ainda amamentou.
Hoje olha para as suas filhas e só lhes diz:
- Vocês não sabem o que é a vida nem das dificuldades para criar um filho !....
Hoje vocês tem tudo, e lá vai recitando a " lenga-lenga" do costume.
luiscoelho