domingo, 3 de janeiro de 2010

As poupas

Nos meses de Verão = Julho e Agosto = havia "Doutrina" Junto à Igreja Paroquial de Souto da Carpalhosa. 
Hoje dir-se-ia = aulas de Catequese.
Os Seminaristas em férias ajudavam o Senhor prior nesta tarefa.
Depois do almoço lá íamos nós subindo a encosta das Picotas.
É um monte elevado que nos ficava a nascente e nos encurtava o caminho.
Por outro lado não corríamos o perigo de andar na estrada nacional 109 que liga Leiria à Figueira da Foz. Quase sempre caminhávamos em grupo subindo pelos carreiros de terra batida.
Havia dois salões muito grandes onde sentados em bancos corridos  iamos repetindo em coro todas as orações e actos de Fé, Caridade, Contrição. o Credo, a Salvé Rainha e todo quanto se dizia naquele tempo.
Num dos Salões ficavam os rapazes e no outro ao lado ficavam as meninas.
Devíamos ser mais de 80 no total.
Havia ainda um terceiro salão mais perto da Igreja para os alunos do último ano de Doutrina.
Estes últimos eram preparados para fazer a Profissão de Fé e o Crisma.
Recordo aquelas tardes desses meses em que o calor mais se fazia sentir, mas também ouvindo aquela cantilena que nos fazia pender a cabeça para os lados. 
Os Catequistas batiam-nos com uma cana na cabeça e aí abríamos os olhos num misto de raiva e vergonha.
Terminada esta fase de aprendizagem éramos submetidos a um exame oral = a exemina =
Se soubéssemos tudo passávamos e poderíamos fazer a Primeira Comunhão ou a Comunhão Solene. 
Numa destas tardes seguia com o David, quando nos lembrámos de ir ver se a poupa já tinha os filhotes criados e bons para levarmos para casa.
Meti a mão e o braço na toca da Oliveira e agarrei a primeira. Puxei-a para fora. Muito bonita e já criada. Então com maior desembaraço fui procurar a segunda ave.
Agora acontecia um problema maior e mais difícil de resolver.
Teríamos de voltar a colocar os pássaros no ninho e ir à catequese ou então faltar à catequese e guardar os passaritos.
Optamos pela segunda hipótese.
Ficámos por ali escondidos a guardar os passaritos e fazendo tempo para que os outros voltassem tambem para casa.
Combinámos ainda que este segredo nunca o contaríamos a ninguém. E, assim foi. Respeitámos este acordo e nunca ninguém soube do nosso plano.
Os passarinhos, coitados, acabariam por morrer por falta de alimentação cuidada.
As poupas são muito bonitas mas não se podem engaiolar.
Os nossos pais nunca souberam que nessa tarde nós não fomos com os outros à doutrina
luiscoelho