quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A ceifa do trigo


Amanheceu lentamente numa temperatura invulgar. Os primeiros raios de Sol, entraram-nos pelo quarto, fazendo-nos esconder num jogo de ir, ou ficar mais um pouco, naquele conforto.
A ansiedade venceu. Saltámos da cama para viver mais um dia na quinta.
Esfregámos os olhos e vestimos roupa para andar no campo.
Nesta altura, já o avô havia ordenhado as vacas e, agora, andava a levar-lhe molhos de feno seco, para irem roendo durante a manhã.
Corremos para a cozinha. A avó já devia ter a fogueira acesa. 
Tudo era encanto e deslumbramento.
Aqueles troncos a arder com grandes panelas de ferro à volta. Coisas da avó!
Estávamos em finais de Julho e, as temperaturas durante o dia são muito altas.
Toda esta zona, no coração da Beira Alta apresenta esta característica: - Muito frio ou muito calor.
Naquela manhã, o tempo estava simpaticamente agradável e parecia-nos estarmos num clima mediterrânico.
Na mesa grande da cozinha havia café quente  e outra bilha com leite também quente.
Havia ainda na mesa, fatias de presunto, pão e queijo fresco, paio e rabanadas para que todos pudessem comer livremente..  
Com uma mesa assim até parecia dia de festa, mas aqui , em casa da avó, era uma coisa normal.
O Pão era fresco. Foi cozido na véspera, no forno grande, e estava delicioso.
O avô, e outros homens lá da aldeia, trocaram o café por um naco de presunto com pão e beberam duas malgas de vinho da adega.
A Avó, já havia saído para o campo. Hoje era dia de cegar o trigo. Vinham algumas pessoas ajudar e outros vinham ganhar o dia = jorna.
Começavam o trabalho, ainda antes do nascer do Sol. Se tudo corresse bem e ninguém lhe faltasse deveriam cortar metade da seara.
Acabámos o  pequeno almoço, e fomos também para lá.
Os ceifeiros, formavam uma linha recta e dobrados para o solo, iam cegando com a foice (citoira) o trigo maduro.
Para trás, ficavam pequenas camadas de palha que a "Canalha" os mais novos, iam juntando para se fazerem  os molhos. 
Os homens mais mais velhos, com um desembaraço desconhecido, escolhiam uma mão cheia de palhas que dividiam em duas partes e retorcendo-as faziam o "vencilho" para apertar os molhos.
O Sol, já ia alto, quando pararam para uma pequena merenda. Muitos, vinham sem tomar o pequeno almoço e era costume fazer esta pausa.
Recomeçaram logo de seguida mas, a fadiga e o calor, parecia desanimá-los.
Então, a avó, vendo a situação de cansaço, começava uma cantiga e todos cantaram com ela. Homens ou mulheres todos cantaram num coro próprio.
De quando em vez levantavam as costas para aliviar a dor e para respirar com outra intensidade.
Este canto, parecia dobrar a seara na ondulação triste das vozes.
Um dos mais novitos ia com a bilha da água  ou com o pichôrro do vinho, correndo o grupo, para quem quisesse beber.
Paravam ao meio dia, e iam almoçar a casa. Contavam uma hora para o almoço, e outra para a sesta. Aquele descanso, era como que um recarregar de baterias. Alguns diziam:
_O almoço foi bom mas, a sesta foi ainda melhor!
As tardes, eram talvez mais pesadas, pelo calor e também pelo cansaço.
A meio da tarde, paravam novamente para uma "bucha" - merenda.
Sentavam-se como podiam e de preferência à sombra. A Ti Carminda, servia-lhes uma fatia de pão com uma posta de bacalhau frito, com ovo e farinha de trigo. Quem não gostava, comia queijo fresco ou presunto e, também havia, quem comesse de tudo.
A merenda, demorava mais ou menos 30 minutos.
Oh pessoal isto não é sesta!...Temos de ir ao trabalho....Dizia um dos mais velhos.
O tempo, começava a arrefecer e, as cantigas ao desafio iam ao rubro. Imaginação e escárnio de uns para os outros, até por vezes à desconfiança.
A noite, vinha suavemente e o cansaço tomava conta de todos.
Oh Ti Carminda, não fazemos serão hoje.....Aqui não se ouvem as trindades... dizia um outro....amanhã tambem é dia......e assim sucessivamente para concluir o dia.
Vocês é que sabem! Quando quiserem podem ir. Já não se vê.... respondia ela!
A canalha, já tinha desaparecido com a cegueira da brincadeira.
A avó, trazia o cesto com os restos da merenda, pousava-o num canto da cozinha e começava a fazer a ceia.
Num pote de ferro ao lume coziam as batatas, enquanto cortava as folhas de couve muito finas para o caldo verde. Parecia que a avó não tinha andado por lá a cegar o trigo, pois fazia tudo com desembaraço e sempre a sorrir para todos.
Alguns mais velhos, ajudavam a pôr os talheres na mesa e, entretanto estava a ceia pronta.
O avô, que tinha ido tratar das vaquinhas e ordenha-las já estava também a chegar.
Depois da ceia, o cansaço chamava-nos para a cama, mas a avó, ainda iria ficar mais tempo arrumando tudo e preparando as coisas para o dia seguinte.
Mais tarde, vieram as máquinas e faziam tudo mais rápido e sem tanta despeza, mas o avô partiu e os campos ficaram ao abandono.
Hoje, recordamos aquelas datas e todos aqueles sabores mas, nada mais podemos fazer naqueles campos cobertos de mato.
luiscoelho