segunda-feira, 1 de março de 2010

Os Domingues do Casal

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Conta-se por aí que os Domingues do Casal eram rapazes "vivaços" e sempre bem dispostos. Não havia nestas redondezas quem os igualasse nas brincadeiras, bem imaginadas e representadas com alto grau de perfeição.
As pessoas nem desconfiavam, que tudo quanto eles diziam e faziam, era pura imaginação.
Mais tarde, comentavam com os amigos algumas destas cenas.
Davam ainda mais graça à sua imaginação, e então os amigos rebolavam-se de tanto riso, quer pela graça das partidas quer ainda pelos gestos e falas utilizadas.
No final saía sempre aquela conversa:
- Isto é muito melhor que irmos ao circo.........!
- Oh Mário, conta lá aquela da Fábrica do senhor Carvalho de Monte Redondo.
 - No mês de Junho, a feira dos 29, era no dia de São Pedro, o último dos três santos populares. Antigamente era dia santo. Ninguém trabalhava aqui nas aldeias. Aproveitavam o dia para irem à feira vender as suas coisas, criadas no campo, ou ainda, para comprarem uma fatiota nova.
O Mário e o Manuel, eram rapazes de aspecto agradável e com os fatos novos, nem pareciam ser trabalhadores rurais, habituados aos trabalhos mais duros da vida no campo.
Entraram na  fábrica, com um ar grave e as mãos cruzadas atrás das costas.
Iam conversando, sem se rirem, e sempre muito compenetrados.
- Dizia o Mário:
-Esta máquina, não pode ficar aqui....Isto, não pode ser assim.... Esta, vamos colocá-la à saída.....
Respondia o Manuel:
- Pois, pois ...O senhor tem razão....Deve-se mudar isto tudo na próxima semana....aquela máquina fica melhor acolá.
Andavam ambos naquele teatro, quando alguém veio ter com eles  e lhes perguntou o que é que pretendiam.
Nós, andávamos a tirar as medidas para fazer a montagem da nossa fábrica, responderam prontamente.
O Senhor Carvalho, deu-nos autorização, acrescentou o outro.
Entretanto, foram caminhando para a saída que já estava perto.
O empregado, nem chegou a saber quem eram, e porque andaram ali tanto tempo.
Já na rua, riam alto, e com mais vontade ainda, por terem conseguido o que queriam. 
Fingir-se donos da fábrica.

II

Havia em tempos, umas Termas para doenças da pele  na Azenha. Ficam ali para os lados de Alfarelos - Coimbra.
As pessoas aproveitavam os meses de Inverno para irem para lá fazer os tratamentos «ir a banhos».
Geralmente passavam lá 15 dias. 
No final da primeira semana, alguém da família ia visitá-los e levar-lhes mais coisas para comerem. 
Durante a estadia, alugavam um quarto, com serventia de cozinha, numa casa particular.
Uma vez, os Domingues, foram lá visitar um familiar.
Embarcaram no comboio na estação de Monte Real, guardando sempre uma saca de pano onde levavam os mantimentos para o seu familiar nas Termas.
No regresso não traziam nada, e então deram largas à sua imaginação. Percorreram todas as carruagens onde conseguiram entrar. Nas estações saíam de uma carruagem e entravam na seguinte  deixando sempre uma marca de boa disposição.
Quando o comboio começou a travar já perto da estação de Monte Real, foram perguntar a umas Senhoras (muito finas e distinas):
- Diga-me por favor que Estação é esta...... ?? (eles fartíssimos de saber)
- É Monte Real, responderam .
-Há ....! Monte Real.....!
- Anda, anda mano!... Temos de sair aqui... vamos embora ...... o nosso choufer, está à espera......! E o Paizinho está muito, muito ralado, respondeu o outro.
As senhoras continuaram a viagem e eles saíram muito rapidamente, pois ainda tinham de palmilhar mais de três quilómetros a pé  até chegarem a casa, pelas encostas das Ladeiras do Casal.

III

Certa vez, andavam cansados de trabalhar nos campos do Vale do rio Liz.
Estavam cheios de pó e de suor. Então combinaram, ir tomar um banho de água fresca ao rio.
Não se via ninguem por ali. Escolheram um recanto ladeado de amieiros  que fazia uma repreza natural de águas muito cristalinas.
Tiraram todas as suas roupas, que guardaram junto de um arbusto, e "descalços até às orelhas" lançaram-se na água, que naquela altura tinha uma temperatura muito agradável.
Alguém os espreitava e os seguia. Assim que os viu a chapinhar no lago foi-se ás roupas e levou-as, sem eles se aperceberem.
Quando foram para se vestir  e não viram as calças e as camisas ficaram desorientados. 
Estamos perdidos, dizia o Manuel. - Então aquela ...santa .... filha da...levou-nos a nossa roupa toda....e agora como é que vamos para casa.... com tudo à mostra....!?
- Tem calma, Manuel. Vamos estudar como fazer isto sem sermos vistos por ninguém. 
É preciso não fazer barulho e ver quando é que podemos avançar.
Dito e feito. Estavam escondidos no ponto onde tinham guardado as suas roupas  e agora queriam descobrir outro sítio mais longe do rio e mais perto da sua casa.
Já não eram como Deus os pôs no mundo. Eram homens feitos, com as suas partes púbicas bem evidenciadas.  Não queriam ser chacota de ninguém.
O tempo estava a seu favor. Era quase noite, e de noite era mais fácil, esconderem-se na própria escuridão.
Aos poucos atravessaram terrenos cheios de milho e pinhais que lhe davam a possibilidade de procurar outros abrigos. 
Chegaram a casa pela noite dentro e já com outro plano vestir-se rapidamente sem serem descobertos pelas irmãs ou os pais..
O Mário estava preocupado com as suas roupas. Faziam-lhe falta e não tinham outra para vestir . Neste tempo só havia a roupa do trabalho no campo, e a roupa do Domingo para ir à Missa "ver a Deus"
Combinaram com a irmã para ir lá a casa da "santinha"....... buscar as suas roupas.
Tão cedo não voltarão a tomar banho no rio e ainda menos completamente nus.

IV

O transporte, nestes tempos recuados, era o burro.
Quando acabavam o dia longe de casa e o cansaço era muito. Montavam-se no burrinho que os traziam de regresso até a casa. 
Parecia uma corrida de burros. Uns atrás dos outros caminhando lentamente no escurecer dos dias e de regresso ao doce lar.
Às vezes o compadre dizia :
- Passamos lá em casa para provar a pinga. Não torcem caminho. 
As conversas e os copos, por vezes, são inconvenientes e no final de um dia de trabalho nos campos, turvava mais os conhecimentos.
Acreditavam que o burro os levaria sempre a casa.
Um dia enquanto bebiam e conversavam na adega do Armando, alguém, por malandrice,  foi trocar os burros de lugar.
De noite todos os burros são pardos, dizem aqui na aldeia.
Quando acabaram de beber o último copo e depois de desejar as boas noites saíram  e montaram-se no burro onde o tinham deixado. Nem repararam que não era o seu.
O burro puxava para um lado e o dono para o outro.
Nã pode ser...! isto nunca m´a  aconteceu....! Querem lá ver que o burro tá doido...!
Olha olha ,...então ali o burro do Mário, salvo seja, e com a sua licença, tá pró mesmo....!
Nós bebemos e os animais endoidaram....... Nã pode ser....
O Manuel chega-se junto do Mário e diz-lhe :
- Vê lá se este burro é o teu...?
- Vendo bem não me parece....! O compadre deixe-me ver  a sua besta....
- Trocaram-nos os animais, tá visto....
Burro para um lado e encontrão para  o outro lá se montaram cada um no seu e seguiram caminho. O Manuel e o Mário Domingues iam a pé e seguravam o burro pela arreata. 
Não está nada perdido..........Amanhã voltamos ao mesmo. 
Ganhamos apenas para a sopa. Cada dia estamos pior....
luíscoelho