sábado, 18 de julho de 2009

Desfolhada

Posted by PicasaEm finais de Julho as espigas de milho estão quase maduras e programa-se a semana para começar a cortar a palha ainda com a espiga.
Os dias começam cedo. Há muito trabalho e tem de ser feito antes que o calor aperte. Estão todos prontos ainda mal se vê. Cada um com uma foice começa o trabalho segurando a palha junto da espiga e cortando-a em baixo bem rente ao chão. Exige-se rapidez e capacidade de segurar na mão várias canas de milho que depois se voltam para trás em molhos sempre ordenadas no mesmo sentido. Quando parece já haver o suficiente para uma carrada metem-se os bois a puxar o carro pelo meio dos molhos de milho e dá-se início ao carregamento com alguma técnica de modo a que se possa levar a maior quantidade e que o carro fique também bonito, pois outros nas mesmas lides farão comentários que um lavrador não gosta de ouvir.
É preciso estar sempre alguém na frente dos vaquinhas pois elas podem fugir e também porque quem anda em cima da carrada pode desequilibrar-se. Quem está em baixo pega nos molhos de milho e manda-os ao ar em direcção ao que estiver lá em cima do carro, de modo a que aquele os agarre e os coloque no sítio certo da carrada, travando-os e sobrepondo-os uns aos outros em camadas certas. Chegados a casa procura-se uma sombra para deixar esta carrada e voltar lá para trazer outras cargas, enquanto se puder aguentar o calor e as palhas não se desfazem por estarem demasiado torradas pelo sol. É preciso também saber descarregar sem perder muito tempo e deixando toda a carrada certa e direita. Primeiro desapertam-se as cordas que apertavam todo o conjunto ao carro. Depois com um maço de madeira tiram-se todos os foeiros do carro (são paus afiados que estão nas laterais do carro de bois e que servem de suportes para a palha não cair do carro). Quando tudo está preparado retiram-se os bois lentamente enquanto um homem segura o cabeçalho do carro levantando-o para cima de modo a que bata com a traseira no chão. Depois fazem-se rodar as rodas para a frente para que toda a carrada escorregue pelo leito do carro e fique assente no chão. Então já se pode levar o carro novamente para outro transporte.Depois do almoço e nas horas de maior calor sentam-se todos à volta da palha deixada em casa para retirar as espigas para os poceiros e que vão sendo levadas para a eira para num serão à noite se fazer a desfolhada. Atrás de cada pessoa amontoa-se outro molho de palha que vai para o barraco onde se guarda ou ainda em medas para servir de alimentação aos bois.
A desfolhada é feita por convites avisando os vizinhos e outros conhecidos. Sentados no chão da eira e entoando cantigas de roda e outras ao desafio vão enchendo os cestos com as espigas de milho que são levados para a outra parte da eira para acabar de secar. O candeeiro de petróleo vai alumiando com muita dificuldade pois a luz é fraca e o monte das espigas é grande. De quando em vez ouve-se o dono a avisar: Oh pessoal cuidado não me deixem as espigas perdidas na palha. Os rapazes andam sempre na esperança de encontrar uma espiga vermelha para dar um beijo à rapariga de quem mais gostam. Às vezes uma pessoa mais velha passa uma despercebidamente para criar confusão. Não se pode encher toda a eira pois ainda vai haver bailarico quando o trabalho terminar.
O convívio com todos foi bastante agradável e o final foram avisando: Se puderem e fizerem favor amanhã é para mim, dizia o Ti Lopes, depois de amanhã sou eu a descamisar o milho dizia a São do Morgado do Casal e assim se ia fazendo alguns trabalhos comunitariamente.
Os rapazes juntavam para o lado as folhas da espigas e o tocador de realejo começava os primeiros acordes. Via-se o brilho nos olhos da juventude que dando as mãos começavam com as cantigas de roda cantando e dançando como sabiam. Os mais novos juntavam-se ao grupo e iam aprendendo as cantigas e os passos. As estrelas e o luar davam um romantismo e um encanto especial a estas noites que se foram perdendo no tempo e também no esquecimento dos mais novos que nunca tiveram oportunidade de conhecer estas pequenas maravilhas da vida em anos passados aqui na aldeia. Os mais velhos entretinham-se a falar das suas coisas e iam deitando um olhar por vezes maroto aos mais novos nos seus passos de dançarinos.
luiscoelho