sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Beata do Rego

Esta noite não conseguia fechar os olhos naquele sono reconfortante que nos faz esquecer as mágoas e as agruras de cada dia.

O sono que nos liberta das preocupações diárias e daqueles desejos de alcançar algo mais e melhor na nossa vida ou ainda de organizar tudo para que o nosso trabalho seja menos cansativo e mais bem feito.
Não sei porquê, mas no meio de tantos pensamentos, recordei parte da minha infância, aqui na aldeia. Recordei os meus amigos da Escola Primária, os nossos vizinhos e também algumas figuras características desse tempo.
Hoje recordo melhor uma velhinha sempre vestida de negro da cabeça aos pés. - A Beata do Rego.
Na cabeça, trazia sempre um lenço preto que lhe escondia completamente o rosto não deixando ver a sua cara.
Para ela seria normal viver assim.
Para nós crianças a coisa era muito diferente e a curiosidade era cada dia maior.
Porquê assim vestida?
Certamente teria vivido um grande desgosto, pensava eu, pois não encontrava explicação para tanta tristeza.
Vivia aqui perto numa pobre casa, húmida e também escura por falta de janelas.
O que haveria dentro daquela casa e como poderia aquela senhora viver lá sozinha e sem ter por perto os seus familiares.
Eram perguntas que me iam enchendo a cabeça.
Nessa data era impensável para mim viver sem pai ou mãe que nos protegessem e guardassem dos malfeitores e fossem principalmente nossos amigos.
Esta Senhora parece que já não tinha família.
Recordo que algumas vezes e por caridade os meus pais a chamavam para fazer uma tarde aqui no campo a cegar o feno para os bois ou a colher algumas sementes, pois ela não era capaz de fazer muito mais pela sua debilidade física. Alem de comer aqui um prato de sopa davam-lhe o salário correspondente.
Não falava quase nada, mas se lhe perguntassem alguma coisa respondia sempre com muita delicadeza. Parecia até ser uma senhora com muita educação.
Vi-a, muito dias, na Igreja em profunda meditação.
Nesse tempo havia missa logo ao nascer do dia.
Era celebrada em latim. Não sei se alguém percebia alguma coisa mas a Fé tem destas coisas. As pessoas iam e cada uma rezava como entendia.
A Beata do Rego estava lá com as suas vestes e o seu ar de recolhimento.
Comungava sempre. Coisa que a maioria das pessoas só fazia pela Páscoa ou datas especiais.
Depois de todos saírem da Igreja, aquela senhora ficava ainda horas esquecidas fazendo as suas meditações. Nesse tempo as Igrejas estavam abertas todo o dia.
Um dia perguntei ao pai:
_ O que lhe aconteceu para andar sempre naquele luto e com tanta tristeza...?
Então o pai lá foi dizendo algumas coisas, mas não sei se entendi tudo.
_ Quando ela era nova, era muito bonita e quis ser freira. Foi para um Convento, mas passados uns anos mandaram-na embora e como nunca se casou ficou assim triste e sozinha.
Ela era uma pessoa rica. (rico era nesse tempo ter muitos terrenos)
Vendeu tudo e só ficou com esta casita para viver, mas parece-me que deve chover lá dentro, continuou o pai.
_ Ela não é capaz de arranjar nada e também não pede ajuda a ninguém.
Vive mortificando-se para ganhar o Céu com sacrifícios.
Conta-se que ela teve um filho de um padre e que foi por isso que a puseram fora do Convento.
Se tinha dúvidas ainda fiquei com mais. Então e o filho?
Ninguém sabe. Respondeu o pai.
Ficamos ambos em silêncio. O pai continuou o que estava a fazer e eu, que não estava satisfeito, mas também não conseguia fazer nova pergunta.
Recordo ouvir como piada = sementeiras da Beata =
Eram aquelas sementeiras que algumas pessoas faziam. Num canto pequeno de terra semeavam couves, batatas, feijão, milho e nabos.
Resultado não se criava nada, pois as sementes germinavam e morriam não tendo espaço para crescerem e se desenvolverem.
Outra frase ainda:
=Ali, na da Beata=. Identificavam um terreno comprado à senhora.
Um dia pelo Natal fomos levar-lhe alguma lenha para a fogueira, assim como outras coisas que a mãe colocou num cesto: batatas, pão, azeite, feijão e algum toucinho salgado.
Entrámos por uma porta muito grande e fomos andando por um corredor esburacado até uma parte onde a senhora estava sentada e embrulhada num xaile preto. Esta devisão devia ser a cozinha.
Entregámos as nossas coisas e saímos novamente fechando aquela porta grande de um verde aguado.
Certamente terá ficado a rezar por nós que lhe levamos alguma coisa para comer.
A lareira parece que já não era acesa, há muitos dias.
Parece que também não tinha nada para comer, nem dinheiro para poder comprar.
Hoje certamente ninguém a deixaria ali a morrer de fome e de frio.
= Para trabalhar não tinha força e para mendigar tinha vergonha=
Foram os seus vizinhos mais próximos que lhe foram levando uns caldinhos de sopa enquanto viveu na maior pobreza.
Não sei o verdadeiro nome da Senhora.
Para nós foi sempre a Beata.


luiscoelho