sábado, 14 de novembro de 2009

Carmita

Primavera de 1955.
Tínhamos regressado da escola.
Era uma tarde como todas as outras. Antes das nossas brincadeiras também tínhamos algumas tarefas a cumprir, que os nossos pais nos marcavam.
Nesse dia fomos tirar água do poço.
O Henrique, que era o mais velho, devia ter uns doze anos, foi ao curral soltou as vacas e aparelhou-as.
Primeiro prendia-as com a "açóga". É uma corda metida nos chifres dos bois e que os prendiam um ao outro de modo a que se pudessem segurar. Depois colocava a "canga" ou jugo. Pedaço de madeira com correias presas aos chifres e ficavam prontas para puxar o engenho de tirar água do poço.
Geralmente as vacas procuravam o jeito, pois não trabalhavam se lhe trocássemos as posições.
A da esquerda sempre na esquerda como a da direita sempre nessa posição.
Antes ainda eram presas com outra corda ao madeiro (cabeçalha) no centro do poço, para não puxarem para fora daquela circunferência.
Costumávamos gastar duas horas a fazer este trabalho.
Esta tarde cabia-me a mim andar atrás das vaquitas para fazê-las andar sempre à volta do poço movendo o engenho e puxando sempre no mesmo ritmo a água para regar o milho e a horta, couves e feijão.
Logo que a água límpida começou a correr, o Henrique, descalço e com um sacho às costas sumiu-se por dentro do milheiral, pisando sempre os buracos das toupeiras e encaminhando a água pelas leiras de milho verdejante.
As filhas dos nossos vizinhos-Júlia Branca viúva do Pele e Osso- vinham até aqui para brincarmos ou para estudarem em conjunto pois eramos quase todos da mesma idade.
Nessa tarde a Carmita subiu para cima do poço e apesar dos meus gritos a chamá-la ela caiu lá para dentro. Mais ou menos 15 metros de profundidade.
Fiquei sem saber de mim também.
A mana que estava em frente da porta a estudar quando ouviu os meus gritos começou a gritar também. Parou as vaquitas .
O Henrique, assim que nos ouviu, veio logo para junto de nós.
Foi buscar uma corda e segurando-a numa ponta mandou o restante para dentro do poço e pediu á menina para se agarrar à corda para não se afogar.
Pediu à mana que fosse a correr chamar o tio Joaquim que morava ali perto.
Parece que estou a ver o desembaraço do tio.
Desapertou as calças e tendo ficado só com as ceroulas brancas desceu pelos alcatruzes até ao fundo do poço.
Pegou a menina ao colo e viu que estava tudo bem pois a queda foi amortecida pela água e porque a Carmita caiu a direito sem tocar nas paredes nem em nada.
À volta do poço já se tinham reunido muitas pessoas.
O tio recomendou lá de baixo:
_ Vão buscar um cesto, poceiro de vime, prendam-no com cordas e mandem-no cá para baixo.
Pegou na menina e colocou-a dentro do cesto e deu ordem para a puxarem com cuidado.
Quando estava fora de perigo a mãe da Carmita pegou-lhe ao colo e levou-a para casa para a enxugar e lhe trocar de roupa.
Recordo o tio contar que quando tentou agarrar a menina ela não se largava da corda. Tão grande era o seu medo.
Foi um susto sem consequências mais graves, mas servi-nos de lição a todos e nunca mais nos deixaram andar por ali sózinhos naquelas tarefas.
Os nossos pais só souberam à noitinha destes acontecimentos.
Andavam longe a trabalhar e ninguém os foi chamar.
Em 1961 o pai meteu um motor eléctrico no poço e uns anos depois construiu-se uma placa de cimento para o vedar completamente.
Quando nos encontramos por aí, a Carmita e eu, nem falamos desta história pelo medo que ainda hoje habita na nossa memória.
O medo foi tanto que nunca consegui descer ao fundo de um poço.
luiscoelho