terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Serões na Aldeia

O dia entardeceu mais frio e húmido da chuva que caiu copiosamente nas últimas semanas.
Enquanto a mãe preparava a ceia para os quatro filhos, o pai ainda andava na rua a tratar dos animais.
 A mãe sentada perto da fogueira que iluminava toda a cozinha, ia escolhendo as folhas de nabiça e ao lume já estava uma panela de ferro de três pernas onde haveria de se cozer a ceia.
_Mãe o que é hoje o nosso comer...?
Perguntou um dos rapazes num dos interválos da brincadeira.
 _Hoje vamos todos comer uma sopinha com muitas verduras do nosso quintal e aproveitando o feijão que sobrou ao meio dia.
As mãos da mãe nunca paravam de escolher e sacudir aquelas folhas de nabiças tenras e viçosas e depois cortá-las muito finas para um alguidar de barro.
Na parede em frente estava já acesa a candeia alumiando apenas as nossas sombras que não paravam sossegadas.
Daí a pouco, o pai entrou na cozinha e veio sentar-se no seu canto para se aquecer antes de a mãe começar a deitar a sopa nos pratos.
Todos á uma saltamos-lhe para o colo, os braços e as pernas e recebemos aqueles mimos tão gostosos.
Lembro a dureza da suas mãos calejadas de cavar  a terra nos campos diàriamente.
Por vezes doía quando apertava demais as nossas mãositas frágeis e finas.
Estávamos no Inverno e faltavam poucos dias para o Natal.
Começaram então uma cantiga ao menino Jesus, daquelas que se cantavam na Igreja e lá nos distraíam da trovoada e do sono que já nos atormentava os olhos.
A canção preferida de todos:


   Entrai pastorinhos entrai
   Por esse portal sagrado
   Vinde adorar o menino
  Numas palhinhas deitado


O pai procurava mais lenha para reavivar a fogueira que crepitava misturando-se no barulho da chuva a cair com força nas telhas por cima de nós.
A luz dos relampagos invadia toda a casa e o medo roía-nos interiormente.
A Mãe logo nos socegava com aquela oração a Santa Bárbara


Santa Bárbara bendita
Que no Céu está escrita
Livrai-nos destas trovoadas
E de todas as almas penadas


 Entretanto as trovoadas passavam levadas pela chuva e o vento.
Começava a rabujice do sono e o pouco apetite para comer a sopa ainda a escaldar nos pratos.
Nesse tempo não nos cantavam aquelas músicas que só aprendemos mais tarde.
«come a papa Joana come a papa..../...»
Tinhamos mesmo de limpar o prato. Alguns dias a Mãe mais cansada dizia-nos:
_ Não queres, não comes.
Vou guardá-la e vais comê-la amanhã. Não comes mais nada..!
Não podemos estragar e a sopa está muito boa.
Aos poucos íamos comendo, para de seguida irmos dormir socegados.
luiscoelho